Entrevista com Pedro Brancalion

capa_sementes e mudasEm novembro deste ano, foi lançado pela editora Oficina de Textos o livro “Sementes e mudas – guia para propagação de árvores brasileiras”, obra essencial para produção de sementes e mudas de mais de 200 espécies florestais nativas.

Conversamos com um dos autores do livro, o Professor Pedro H. S. Brancalion, sobre o conteúdo e diferenciais desta obra.

 

 Oficina de Textos: Como surgiu a ideia de você e o Carlos Nogueira Souza Junior escreverem este livro?

Pedro Brancalion: Eu conheço o Carlos já faz um bom tempo, e ele faz um trabalho belíssimo lá no viveiro Camará. Já havia sido publicado um material com base em algumas fotos que ele tinha, e o resultado ficou um pouco a desejar, então um dia eu falei para ele: “Carlos, vamos fazer um livro de sementes e mudas? Mas com um pessoal que é profissional, que vai conseguir valorizar as fotos, as informações que a gente vai produzir”. Na época eu já estava escrevendo um livro sobre restauração com a Oficina de Textos, e então dei a ideia para ele, que ficou super animado. Expliquei para ele como funcionava o trabalho com a editora, essa possibilidade de ter alguém nos auxiliando em como preparar e divulgar o livro, a possibilidade de o livro ficar acessível para editoras, para qualquer pessoa do Brasil. A ideia mesmo era ter um documento que sintetizasse o nosso conhecimento no assunto, e torna-lo disponível para quem precisa desse conhecimento.

OT: Qual foi a preocupação que vocês tiveram no desenvolvimento deste trabalho?

PB: Na verdade, achávamos que havia uma carência de informações e bons materiais de pesquisa com fruta, voltados para espécies nativas. Existe uma boa base de conhecimento para espécies exóticas, como eucalipto por exemplo, mas para as espécies florestais nativas, não. Existem apostilas e documentos de circulação restrita, e de qualidade também, mas que não são muito atrativos em relação a aspectos visuais e de apresentação.

OT: Na sua opinião, quais os destaques deste do livro Sementes e Mudas?entrevista-pedro-brancalion-ilustrar

PB: Além da grande diversidade de espécies, são mais de 200, com altíssima qualidade de informação, a gente tem nesse livro praticamente todas as informações que alguém precisa para produzir alguma espécie, e é um livro construído em mais de 20 anos de experiência pratica, com a produção dessas espécies. Então, muitas vezes você tem uma informação acadêmica que ela é obtida em um contexto muito restrito e que não sobrevive ao teste do tempo, o que não é o caso do nosso livro, pois as técnicas descritas, são utilizadas diariamente para manter ativa uma empresa que produz quase mais de 2 milhões de mudas por ano. São técnicas comprovadamente bem-sucedidas de propagação dessas espécies.

OT: O livro pode ser utilizado para o reconhecimento de espécies?

PB: Sim, ele pode ser utilizado como um bom guia para identificar espécies, mas nunca como um material para definição da identificação definitiva de uma espécie, porquê na área de botânica nós precisamos sempre dos materiais reprodutivos, ou seja, da folha e/ou do fruto, para confirmação a identificação de uma espécie. O livro vai dar um bom indicativo, principalmente no caso de mudas em que não se dispõe de flor ou fruto, porém não dá para ter muita certeza de que a identificação feita com base em uma muda é de fato correta.

OT: Como foram classificadas as sementes? Porque foi utilizado esse grupo de sementes?

P: Primeiro, a escolha das espécies foi baseada no material que a gente estava trabalhando, então são espécies que são produzidas comercialmente no viveiro Camará, e essa produção comercial é que serviu de substrato para a gente desenvolver o livro. Com relação as informações de sementes, na verdade é um misto entre formação acadêmica da literatura, de conhecimentos práticos obtidos pelo Carlos Nogueira no manejo e manipulação dessas sementes, dados que foram coletados tanto por ele quanto por mim, e algumas extrapolações que são feitas com base em evidencias cientificas, como por exemplo, todas as espécies da família da goiaba, família Myrtaceae, com exceção de um determinado gênero, possuem sementes que são sensíveis a perda d´agua. Então eu sei que esse é um comportamento que faz parte dessa família de plantas. Então mesmo que eu tenha uma semente que eu nunca tenha feito um teste com ela, eu vou saber o comportamento dela por conhecer a história evolutiva daquele grupo. A mesma coisa uma família que tem um traço marcante e esse traço é conservado nessa família. Então é possível às vezes você predizer um comportamento de um indivíduo com base nos seus laços familiares, e isso a gente faz com planta também.

Para saber mais sobre o livro, acesse aqui.

Sobre os autores

Pedro H. S. Brancalion é professor doutor da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), onde coordena o Laboratório de Silvicultura Tropical (Lastrop).

Carlos Nogueira Souza Júnior é graduado em Ciências Biológicas pelo Centro Universitário de Araraquara, possui especialização em Tecnologia de Produção de Sementes Florestais pelo Instituto de Botânica de São Paulo e é proprietário do Viveiro Camará, com mais de 20 anos de experiência na produção de sementes e mudas para recuperação de áreas degradadas.

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