A polêmica da clonagem

O termo “clone” foi criado em 1903 pelo botânico Herbert J. Webber, enquanto pesquisava plantas no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Segundo o pesquisador, organismos que derivam de uma única célula ou ancestrais comuns são clones.

A primeira tentativa de realizar este tipo de procedimento ocorreu somente em 1902. Hans Spemann, um embriologista alemão, dividiu células do embrião de uma salamandra em dois. Cada uma das células resultou em um animal. A pesquisa rendeu o prêmio Nobel a Spemann em 1935.

A polêmica da clonagem teve inicio somente em 1996, quando foi divulgado o processo de clonagem do primeiro mamífero: a ovelha Dolly foi gerada a partir de glândulas mamárias de outra ovelha e o caso ganhou fama na imprensa.

Para contar um pouco mais sobre clonagem e os benefícios do procedimento terapêutico, convidamos Francisco Salzano, Professor Emérito do Departamento de Genética do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisador nível 1A do CNPq, para uma breve entrevista sobre o tema. Confira!

Comunitexto: O primeiro mamífero clonado foi a ovelha Dolly. Na época, o experimento ganhou as manchetes do mundo e gerou polêmica. Muita coisa mudou em relação à clonagem de mamíferos hoje?

Francisco Salzano: Coincidência ou não, foi divulgado ontem em todo o mundo o experimento desenvolvido por Shoukhrat Mitalipov e colegas, da Health and Science University, Oregon, que conseguiram obter células-tronco a partir de núcleos de fetos humanos transplantados, o que vinha sendo tentado há muitos anos sem sucesso. Se os resultados forem confirmados, isso abrirá novas perspectivas para a clonagem terapêutica.

CT: Segundo o livro DNA, e eu com isso? uma bezerra chamada Vitória foi o primeiro clone brasileiro. Depois dela, vieram outros casos emblemáticos?

FS: Não tenho conhecimento de nenhum outro clone desenvolvido no Brasil com objetivos semelhantes nos últimos anos.

CT: A Revista Nature publicou que laboratórios patentearam alguns métodos de clonagem. O senhor pode falar mais sobre isso?

FS: Esses processos de patenteamento são destinados a cobrir gastos de empresas particulares, têm sido objeto de muitas discussões. Embora inevitáveis em um mundo capitalista como o nosso, geralmente eles mais entravam do que favorecem a difusão do conhecimento científico-tecnológico.

CT: Existem diferenças entre clonagens terapêuticas e clonagens reprodutivas humanas. O senhor pode falar como estão as pesquisas em cada tipo?

FS: A clonagem reprodutiva na nossa espécie é proibida nas legislações de todos os países. Já a clonagem terapêutica vem sendo aplicada de maneira experimental em muitos países, inclusive no Brasil, mas desconheço detalhes sobre os desenvolvimentos mais recentes.

CT: Quais benefícios a clonagem terapêutica pode trazer?

FS: A clonagem terapêutica, ou transplante nuclear, promete revolucionar a medicina de reparação de órgãos. O desenvolvimento de células-tronco a partir de núcleos transplantados de células do próprio indivíduo afetado (armazenadas, por exemplo, de seu cordão umbilical obtido ao nascimento), evitaria todo o problema da rejeição de tecidos transplantados devido à incompatibilidade imunológica entre o recipiente e o doador.

CT: Quais são as regulamentações existentes em relação a clonagem no Brasil? E em outros Países?

FS: A regulamentação brasileira, via de regra, é sempre mais complicada que as de outros países. Para a avaliação de projetos relacionados a terapias celulares, os órgãos existentes são principalmente a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e a CONEP (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos), além dos Comitês de Ética institucionais. O processo é lento, e ele muitas vezes é julgado por pessoas com pouco conhecimento de causa ou ideologicamente comprometidas.

Tudo a ver

Se você se interessa por clonagem e genética, vai se interessar pelos livros Genômica e evolução: moléculas, organismos e sociedades e DNA, e eu com isso, escritos por Francisco Salzano. A primeira obra, lançada em 2012, apresenta conteúdo voltado para estudantes de biomedicina, biologia, bioquímica e genética, entre outras, e proporciona uma rara visão holística da área. Já  DNA, e eu com isso? é indicada para alunos de ensino médio e escolas técnicas, com conteúdo rico e inovador sobre o potencial do DNA.

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