Entrevista: a importância do saneamento

O Conselho das Cidades aprovou, no início de junho de 2013, o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab). A medida prevê investimento de R$ 508,5 bilhões para abastecimento de água potável, coleta e tratamento de esgoto e lixo e ações de drenagem.

O documento dividiu as estratégias e recursos em metas de curto, médio e longo prazo (2018, 2023 e 2033) e deve servir como guia para gestores de órgãos públicos e privados, visando a universalização do acesso à água potável em áreas urbanas no decorrer dos próximos 10 anos, oferecer tratamento de esgoto e lixo em 93% das áreas urbanas no período de 20 anos e extinguir o escoamento de esgotos no meio ambiente, para diminuir a contaminação de rios e córregos nos próximos 20 anos.

Apesar de a medida propor ações benéficas, o Brasil ainda carece de avanços na área de saneamento. Convidamos o especialista Ariovaldo Nuvolari, doutor em Saneamento pela Universidade de Campinas (Unicamp) e professor da Fatec-SP, para falar mais sobre este assunto, abordando as diferenças entre saneamento básico e ambiental e apontando como estão as ações voltadas para tratamento de esgoto no País. Confira a entrevista completa abaixo!

Comunitexto: Quando o conceito de saneamento básico se transformou em saneamento ambiental e qual a importância desta mudança?

Ariovaldo Nuvolari: Como se sabe, o conceito de saneamento ambiental é mais abrangente do que o de saneamento básico e a importância disso é que hoje, de certa forma, há uma preocupação maior com outros aspectos, não considerados anteriormente. Na minha visão trata-se de um processo que talvez tenha se iniciado a partir do evento conhecido como Clube de Roma, seguindo-se as grandes convenções internacionais e que fizeram com que o ambiente passasse a ter um peso maior nas decisões, pois até então o modelo de desenvolvimento só se preocupava com a produção a qualquer custo. Assim, pelo menos na minha visão, não houve especificamente uma data, mas sim um processo contínuo de discussões mais aprofundadas, e que ainda estão em andamento na maioria dos países. Apenas alguns estão mais adiantados e outros mais atrasados na implantação das ações necessárias à concretização de tais objetivos.

CT: Entre os aspectos que envolvem saneamento ambiental está o tratamento de esgoto. O senhor pode falar um pouco sobre como estes processos de tratamento têm sido realizados no Brasil? Mudou muita coisa nos últimos anos?

AN: Em termos de distribuição de água potável, o Brasil avançou bastante, embora ainda ocorram carências nesse sentido em certas regiões, sendo as regiões norte e nordeste do País, bem como a periferia das grandes cidades, as mais afetadas. No entanto, a coleta e o tratamento de esgotos, embora também tenham avançado nas últimas duas décadas, ainda estão longe do ideal. A meu ver, um dos maiores problemas é que há uma tendência de aumento da população urbana em detrimento da rural (o censo realizado pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – mostrou que a população urbana passou de 81,2% do total, em 2000, para 84,4% em 2010). Assim, o crescimento populacional em áreas urbanas apresenta uma velocidade que não é acompanhada pela implantação de infra-estruturas capazes de acompanhar esse crescimento. Os problemas tornam-se ainda mais graves nas grandes cidades, notadamente na periferia das aglomerações urbanas e regiões metropolitanas, onde predomina a população de baixa renda. A alta densidade populacional e a ocupação desordenada do solo urbano nestas áreas têm contribuído para a proliferação do número de favelas e assentamentos informais, que possuem infra-estrutura precária e geram situações negativas à saúde e ao meio ambiente.

Em termos de tratamento de esgoto basta dizer que, na maior cidade do país, ainda não se trata metade do esgoto produzido pela população. A capacidade de tratamento instalada nas cinco grandes ETEs (Estações de Tratamento de Esgotos Sanitários) da Região Metropolitana de São Paulo é de apenas 18,0 m3/s, enquanto a produção diária de esgoto (que ninguém sabe exatamente quanto é), é estimada entre 35 e 40 m3/s. A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) é um exemplo, infelizmente negativo, de que dificilmente se poderá recuperar os corpos d’água que cortam a região. Eu costumo fazer um cálculo rápido com meus alunos, no qual discutimos a seguinte hipótese: considerando-se que, num passe de mágica, todo o esgoto sanitário da RMSP fosse coletado e tratado, com uma eficiência de 90% na remoção da Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), chegamos à conclusão de que os 10% de DBO restantes seriam suficientes para extinguir o oxigênio dissolvido do rio em épocas de estiagem. A carga orgânica lançada ainda seria cerca de 18 vezes maior do que o rio poderia suportar. Isso é muito fácil de entender. A vazão Q7, 10 do Rio Tietê, aqui na RMSP é estimada em 20,0 m3/s e o oxigênio disponível (valor de saturação para água limpa), está na faixa de 8,4 mg/L. Se considerada uma DBO média do esgoto de 300 mg/L, nas estações estariam sendo removidos 270 mg/L, sobrando 30,0 mg/L. Para manter uma concentração de oxigênio dissolvido no rio na faixa de 5,0 mg/L, em épocas de estiagem, haveria necessidade de uma vazão de diluição cerca de 9 vezes maior do que a vazão de esgoto, ou seja, no mínimo 360 m3/s. Como a vazão do rio é de 20 m3/s (nas condições críticas de estiagem), a carga orgânica lançada ainda seria suficiente para “matar” o rio diversas vezes. Isso desconsiderando a carga difusa (carga orgânica) trazida pelas chuvas.

Na minha modesta opinião, na RMSP a recuperação da vida no corpo d’água principal que é o Rio Tietê, se mantidos os níveis de eficiência dos atuais processos de tratamento, só seria possível através de ações locais (no próprio rio), cujos custos são difíceis até de se prever.

Se me perguntarem: existem sistemas de tratamento disponíveis, que apresentem eficiências maiores eu respondo que sim; os tratamentos com separação por membranas são bastante eficientes, mas muito caros e a água sairia com uma qualidade tal que, fatalmente, iriam utilizá-la como excelente água de reuso. Em termos de tecnologias de tratamento existem desde as mais simples e que ocupam grandes áreas até as mais sofisticadas, que embora ocupem áreas menores exigem muitos equipamentos, mão de obra qualificada para operação e manutenção e consomem bastante energia. Eu diria que existe tecnologia aplicável a cada caso particular.

CT: Em seu livro Dicionário de Saneamento Ambiental, menciona-se como exemplo, como a alcalinidade é importante em certos tipos de tratamento biológico de esgoto e lodo. O senhor pode contar mais sobre este e outros fatores que um especialista deve considerar e como eles podem auxiliar nestes tratamentos?

AN: Este comentário é apenas um detalhe, embora importante, de algumas fases do tratamento biológico. Os processos anaeróbios de tratamento de esgoto ou de lodo, bem como o processo aeróbio de nitrificação (transformação de nitrogênio da forma amoniacal para nitrito e posteriormente nitrato), apresentam algumas reações nas quais há tendência de diminuição dos valores de pH do meio líquido. Os microrganismos responsáveis por essas reações atuam geralmente na faixa de pH neutro (6 a 8) e não suportariam valores baixos de pH. Assim deve existir alcalinidade no meio líquido que possa ser consumida para que o pH seja mantido em níveis adequados. Quando se trata esgoto sanitário, geralmente esse problema não ocorre, pois o esgoto sanitário apresenta alcalinidade suficiente. É no tratamento de alguns efluentes industriais que tal problema pode vir a ocorrer.

CT: O senhor pode falar um pouco sobre o uso de algas no tratamento de esgotos? Quando surgiu essa aplicação? Como funciona?

AN: Dentre os processos convencionais de tratamento de esgoto, a alga só é utilizada nas chamadas lagoas de estabilização facultativas. Nestas, as algas tem a função de prover o suprimento de oxigênio ao realizarem a fotossíntese, enquanto às bactérias cabe o papel de degradar a matéria orgânica presente no efluente. As algas consomem o dióxido de carbono decorrente da degradação da matéria orgânica pelas bactérias, enquanto as bactérias utilizam o oxigênio gerado pelas algas. Nessas lagoas, porém, a carga orgânica lançada deve ser função das condições climáticas locais, de forma a se promover um ambiente em que estes microrganismos possam viver harmoniosamente, sem que o ambiente venha a se tornar anaeróbio. Por esse motivo, geralmente demandam grandes áreas e só podem ser utilizadas onde exista disponibilidade de áreas e a baixo custo (pequenas comunidades). Eu costumo brincar dizendo que, se fôssemos tratar o esgoto sanitário gerado na cidade de São Paulo através de lagoas facultativas, talvez precisássemos ocupar toda a cidade com essas lagoas. Quanto a outros tipos de tratamento utilizando algas, sei que existem algumas pesquisas, porém visando um tratamento adicional visando a remoção de nutrientes. No Brasil, pelo menos, eu desconheço aplicações desse tipo, pelo menos em grande escala.

CT: Existem locais em que a falta de tratamento de esgoto afetou de forma grave o meio ambiente e os seres humanos?

AN: De maneira geral, em se tratando de esgotos sanitários, basta olhar para os cursos d’água que cortam a maioria das nossas cidades. Estão invariavelmente “mortos”. Não há oxigênio dissolvido e, portanto, não há peixes e outros organismos que dele dependem. Em termos de saúde pública, sabe-se que o eventual contato com essas águas pode trazer doenças. Em se tratando de mananciais para tratamento e suprimento de água potável, quanto mais poluído estiver o manancial maior a quantidade de produtos químicos a serem utilizados e mais sofisticados os tratamentos devem ser. Em termos de efluentes industriais, talvez o acidente mais conhecido seja o da Baía de Minamata, no Japão, onde uma indústria contaminou com mercúrio o ambiente local provocando mortes e distúrbios neurológicos na população.

CT: Quais são as principais soluções encontradas para ampliar a quantidade de esgotos tratados ou redirecionar o esgoto para locais em que este não tenha tanto impacto no ambiente?

AN: Certa vez eu respondi a essa mesma pergunta a uma repórter de um jornal de Guarulhos. Eu continuo com a mesma opinião que externei naquela ocasião: não existe mágica; “devemos arregaçar as mangas” e continuar trabalhando sem cessar, acelerando as obras quando possível, pois o maior desafio não é construir estações de tratamento e sim levar o esgoto até elas. As obras de interceptores, coletores tronco, redes, etc. acabam sendo o nosso maior desafio.

CT: Como se pode medir a eficácia de uma estação de tratamento de esgotos?

AN: Eu costumo dizer para os meus alunos que: tratar esgoto é remover as impurezas (os sólidos ali presentes). Sempre vai depender de qual o objetivo do tratamento. No Brasil, nós ainda estamos mais preocupados em remover a carga orgânica presente no esgoto, pois esta é responsável por consumir o oxigênio dissolvido nos corpos d’água receptores. Nesse sentido verifica-se qual é a concentração de DBO na entrada da estação e qual é a concentração da DBO no efluente tratado.

No entanto, em outros países, há também preocupação com nutrientes, com metais, etc. Assim, em função dos objetivos a serem alcançados, pode-se sempre fazer a verificação das concentrações antes e depois de cada tratamento.

CT: Por fim, cite alguns casos em que se obtiveram resultados positivos alcançados por meio do tratamento de esgotos? (ex. recuperação de uma área degradada ou melhores condições de saúde).

AN: Talvez os exemplos mais conhecidos sejam: a recuperação do rio Tamisa (em Londres), do Sena (em Paris), ou mais recentemente de um córrego que corta a cidade de Seul, capital da Coréia do Sul. Porém, de maneira geral, sempre que se promove o tratamento de esgoto, haverá um ganho de qualidade nos corpos receptores. Foi aqui citado o caso do Rio Tietê, na RMSP (na minha resposta à questão 2) e essa colocação talvez possa vir a gerar o seguinte questionamento de alguns leitores: se é assim, porque gastar tanto dinheiro no Programa de Despoluição do Tietê? No entanto, eu complemento dizendo; devemos nos lembrar que a recuperação do rio à jusante da RMSP vai ocorrer cada vez mais depressa, quanto maior for a carga orgânica removida nas estações. Assim, mesmo neste caso, o objetivo de se tratar o esgoto deve ser mantido. Eu sempre digo que é muito feio jogar lixo no quintal do vizinho, mas é exatamente isso que estamos fazendo com a população que vive próxima do rio Tietê, à jusante da cidade de São Paulo.

Tudo a ver

Dicionário de Saneamento Ambiental, de Ariovaldo Nuvolari, doutor em Saneamento pela Universidade de Campinas (Unicamp) e professor da Fatec-SP, reúne 6.438 verbetes que foram pesquisados em inúmeras referências bibliográficas e consultados entre profissionais da área. Entre as definições você encontra muitas informações sobre bactérias, bacias, reservatórios de água e muitas outras palavras usadas no estudo das diversas interfaces das Ciências Ambientais.

Esta é a primeira obra do gênero em língua portuguesa e possui termos atuais, não somente tecnocientíficos. O Dicionário serve de apoio a estudantes de graduação, pós-graduação, pesquisadores e profissionais nas áreas de Engenharia e Química Sanitária e Ambiental, Microbiologia, Planejamento e Gerenciamento Ambiental etc., em especial os que atuam na área de Saneamento Ambiental, ao elaborarem monografias, dissertações, teses e relatórios técnicos.

Comentários

  1. Obrigado pela informação que li.

    Sou um estudante do curso de Gestão Ambiental na faculdade da UP – Manica, atualmente na fase de elaboração da monografia.

    Concordo plenamente com a resposta que diz : As algas consome o C02 que se encontra nas lagoas, uma vez que elas são plantas aquaticas seria indispensavel em não absolver as gases ou impuresas.

    Na superficie terreste biologicamente também esta claro que as plantas desempenham a funçao de absolver o C02 durante o processo da fotocinte.

    Obrigado pelo ensinamento.

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