As diversas faces de Bertha Becker

Foto: divulgação.

Os estudos de Becker centraram-se nos atributos humanos, culturais e econômicos, nos diversos espaços geográficos coexistentes e suas respectivas populações. A pesquisadora foi uma das pioneiras na negação do conceito de que a Amazônia é um espaço vazio, ela defendia que a partir de núcleos urbanos estabelecidos, o desmatamento poderia ser organizado como parte das cadeias produtivas do gado, soja, leite e madeira, propondo atividades produtivas adequadas aos serviços ambientais proporcionados pela floresta e a exploração de produtos não madeireiros. Segundo ela, o fim do desmatamento só ocorreria com a atribuição de valor econômico à floresta em pé. Por isso, defendia o papel da rede urbana como centros estratégicos de cadeias produtivas e como ‘cinturão de blindagem flexível’ às matas densas.

Becker debateu políticas públicas e combinou conhecimento científico com sua aplicação à realidade, em uma entrevista concedida a National Geographic em fevereiro de 2009, ficou claro esse posicionamento: “A Amazônia tem poucas cadeias produtivas organizadas. O que se produz efetivamente lá é uma quantidade mínima. O nosso modelo de desenvolvimento sempre foi monopolista – na riqueza, na produção e no acesso ao mercado. A circulação fluvial não é organizada com o objetivo de desenvolver a região. A cadeia produtiva sempre foi voltada à exportação. Nunca se deu atenção para beneficiar o povo. É preciso organizar a cadeia de produção desde o âmago da floresta, envolvendo as populações locais, até os setores que oferecem os serviços. Os empresários se interessam muito mais em exportar o produto, sem agregar valor ao local, e isso nunca gerou desenvolvimento. Organizar a cadeia produtiva é tarefa que exige serviços especializados e indústria.”

Bertha Becker atuou como consultora ad hoc em diversas instituições científicas e atuou no processo de elaboração de inúmeras políticas públicas relacionadas à região amazônica. O resultado de seu esforço junto aos diversos setores da ciência brasileira, como a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), foi o delineamento do plano de ação e investimentos em ciência para a Amazônia. Sua proposta era promover “uma verdadeira revolução científica enfocada na biodiversidade nacional, e em especial na biodiversidade da Amazônia”

Fonte de inspiração para diversos pesquisadores, muitos descrevem suas qualidades que iam além dos trabalhos acadêmicos. Na imprensa muito se falou sobre Bertha, e, depoimentos de pessoas que dividiram ideias, trabalhos e ideais sobre a pesquisadora não faltaram. Nós da Editora Oficina de Textos não poderíamos deixar de fazer a nossa homenagem a “cientista da Amazônia”, por isso convidamos dois importantes profissionais para falar um pouco sobre suas experiências com a Geógrafa e dividir aqui, com você leitor, as diversas faces de Bertha.

Antonio Guerra – Professor Titular do Departamento de Geografia da UFRJ, Coordenador do LAGESOLOS (Laboratório de Geomorfologia Ambiental e Degradação dos Solos), do Departamento de Geografia da UFRJ e organizador do livro Processos erosivos e recuperação de áreas degradadas:

Tive o grande prazer de conhecer a Profª. Bertha Becker, desde o ano que entrei para o curso de Geografia da UFRJ, quando fui aluno dela, logo no 1º ano. Uma professora espetacular, com muito conhecimento, dedicação e carisma com os alunos. Que aprendizado todos nós tivemos com ela, em sala de aula e em campo! Não esqueço o trabalho de campo que tivemos com Bertha, quando no ônibus da UFRJ percorremos as ruas da cidade do Rio de Janeiro e subimos até o Cristo Redentor, quando ela explicou toda a origem e crescimento da cidade, uma aula e tanto. Depois disso, tive o prazer de conviver com Bertha por muitos anos, quando passei a ser seu colega, já como professor do Departamento de Geografia da UFRJ, onde trabalho até hoje. Bertha sempre presente, com seu conhecimento, sua sabedoria e sua generosidade com seus colegas professores, seus alunos e seus orientandos de mestrado e de doutorado. Sempre foi uma grande representante da Geografia, no Brasil e no exterior, onde sempre foi muito conhecida e reverenciada. Enfim, uma grande perda para todos nós.

Jurandyr Luciano Sanches Ross – Geógrafo e Professor do Departamento de Geografia da FFLCH-USP e autor do livro Ecogeografia do Brasil.

            Conhecia a Profª. Bertha pelas suas publicações desde quando era aluno de graduação nos idos da década de 1970. Seus artigos sempre foram escritos de forma clara, objetiva e propositiva. Fez parte dos geógrafos que trabalhavam de forma otimista e consistente com visão muito clara e realista dos rumos geográficos brasileiros e, sobretudo da Amazônia brasileira. Não tratava a Amazônia como um paraíso ecológico intocável, mas preocupava-se com o destino da floresta, da biodiversidade e, sobretudo das pessoas que vivem por lá. Tive a oportunidade de trabalhar em parceria com ela junto ao Ministério do Meio Ambiente, no Programa de Proteção das Florestas Tropicais e nossas reuniões de trabalho sempre eram extremamente eficientes com objetivos bem definidos. A última vez que tivemos contatos profissionais foi em 2009 em uma grande reunião no MMA/IBAMA para debater uma proposta elaborada pela professora, sobre o Zoneamento Ecológico Econômico em escala macro daAmazônia Legal. Muita coisa pode ser dita sobre a Professora Doutora Bertha Becker, geógrafa ativa e trabalhadora incansável, que sempre elevou o papel das análises geográficas regionais e em particular da Amazônia muito além das fronteiras da floresta. Sentimos sua perda, mas certamente preservaremos seu legado.

 

Tudo a ver

Aos 72 anos, lançou, em conjunto com Claudio Stenner, o livro Um Futuro para a Amazônia pela Editora Oficina de Textos. A proposta da geógrafa com a obra era despertar neles o interesse pela região, sempre com o foco na ciência e na tecnologia. Bertha, sempre visionária na distribuição e aplicação do conhecimento.

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