Áreas portuárias, por Márcio Almeida

Diversas novidades ocorreram na técnica de construção de aterros sobre solos moles nas últimas décadas, e uma peculiaridade das obras nesses terrenos é a necessidade de se projetar com coeficientes de segurança relativamente baixos, em comparação com outros projetos geotécnicos, sem o que as obras se tornariam anti-econômicas ou mesmo inexeqüíveis, justificando o aprofundamento em investigações e projetos. O livro Aterro sobre Solos Moles, de autoria de Mércio Almeida e Maria Esther Soares Marques, editado pela Oficina de Textos, aborda com profundidade o assunto e, para detalhar um pouco mais esta importante obra, entrevistamos Márcio Almeida, um dos maiores especialistas brasileiros na área de aterros sobre solos moles, com reconhecimento internacional, além de ter participado, como consultor, de importantes obras. Segue entrevista inédita.

Comunitexto: Segundo a obra Aterros sobre solos moles, os portos consistem essencialmente de um cais de atracação associado a uma retroárea. Quais os principais esquemas construtivos em obras portuárias?

Marcio Almeida: O cais apresenta a principal função estrutural e geotécnica de viabilizar a diferença de cotas entre a retroárea e o fundo do plano de água, compatível com o calado dos navios. Os principais esquemas do cais são: laje apoiada em estacas ou estrutura de contenção, em geral, do tipo parede diafragma ou cortina de estacas prancha. O jet grouting ( processo capaz de se valer da atuação de um jato da calda de cimento introduzido no terreno a alta pressão e elevada velocidade através de bicos injetores, num raio bem determinado, de tal modo que desagrega o solo misturando-se a este formando, assim, colunas de solo-cimento) pode também ser usado no cais em particular no caso de dragagem para aumento de calado portuário.

Os principais esquemas construtivos adotados na retroárea são o uso de drenos verticais pré-fabricados para a aceleração de recalques e colunas granulares (tradicionais ou encamisadas), associadas ou não ao uso de reforço de solos com geossintéticos.

 

CT: Quais são as vantagens e desvantagens que condicionam a aplicação de cada um destes esquemas construtivos?

MA: Quanto à retroárea, o uso de drenos requer maior volume de aterros e tempo construtivo considerando-se a eventual necessidade de construção em etapas para o ganho de resistência da camada de argila. Já colunas granulares requerem menores volumes de aterro, e permitem menores prazos construtivos, necessitando entretanto a disponibilidade de solo granular (areia ou brita para as colunas), tendo a princípio custo maior do que a solução com drenos.

A opção pelos dois principais esquemas de cais (laje sobre estacas ou estrutura de contenção) está relacionada com o volume de dragagem a realizar, com geologia e com a batimetria do local antes da construção do porto. O esquema de estrutura de contenção é adotado com maior frequência em portos de águas não profundas, enquanto o esquema de laje apoiada em estacas em portos de águas profundas.

 

CT: Os cais podem ou não ter estruturas de contenção. Poderia falar como funciona o processo construtivo em cada um destes casos?

MA: No esquema de estrutura de contenção, a referida estrutura é executada previamente aos trabalhos de dragagem, sendo estabilizada através de tirantes, estacas raiz, estacas cravadas, entre outros.

 

CT: No livro é mencionado que estas estruturas de contenção são importantes para amenizar impactos ambientais como contaminação da água por sedimentos. O avanço nas tecnologias permite desenvolver melhor estas estruturas?

MA: Sim, pois, em geral, existe um menor impacto no regime hidráulico, uma vez que as estruturas de contenção são constituídas por uma parede vertical, enquanto o esquema de laje, implica a construção de vários alinhamentos de estacas que condicionam mais o regime hidráulico do porto. A técnica de geoformas preenchida com sedimento de dragagem contaminado (Classe 1) é cada vez mais utilizada em retroáreas.

 

CT: Nestas obras de contenção são utilizadas estacas. Quais são as características das estacas utilizadas em solos moles de áreas portuárias?

MA: Por razões construtivas, são adotadas, em geral, soluções que privilegiem os processos de cravação, como é o caso da cortina de estacas prancha e das estacas cravadas travadas da referida cortina.

 

CT: Quais são as informações necessárias para um engenheiro que irá atuar em projetos de áreas portuárias?

MA: Formação sólida nas áreas de geotecnia, estruturas e hidráulica. Tratam-se de projetos multidisciplinares em que o conhecimento dos procedimentos e técnicas construtivas apresentam um papel determinante, condicionando a concepção e a execução das soluções.

 

CT: Existem metodologias aplicadas em obras portuárias para garantir a segurança estrutural do porto? Quais são?

MA: Destacamos os planos de monitoramento e observação das obras portuárias na gestão da segurança e durabilidade das mesmas, além de disposições construtivas que incrementem a durabilidade das obras, como o recobrimento e a proteção catódica dos elementos metálicos colocados no interior das peças de concreto, bem como a proteção e a espessura adicional dos elementos de concreto e metálicos.

 

CT: Para finalizar, existem ações que visem preservar estas estruturas portuárias? Se não, o que é feito para garantir que as estruturas não sofram desgastes naturais?

MA: Como qualquer obra de engenharia complexa e localizada em ambientes agressivos, todos os portos  necessitam de intervenções regulares de manutenção e conservação. Neste enquadramento preventivo (pró-ativo), se existir e for implementado um plano de manutenção e conservação, será possível incrementar a durabilidade dos portos e minimizar os custos de manutenção e conservação. Caso contrário, se as intervenções forem reativas, a vida dos portos terá tendência a ser menor e os custos com as reparações maiores.

O investimento na fase de concepção e projeto nos aspectos de durabilidade, contribuirá igualmente de forma decisiva para a longevidade da obra e para a minimização dos custos de manutenção e observação.

Tudo a ver

Livro Aterro sobre solos molesAterros sobre solos moles inova ao apresentar o papel cada vez mais importante dos geossintéticos como alternativa para a melhoria dos solos moles e estabilização do aterro, tanto no reforço na base do aterro como, em aterros estruturados, no uso de plataformas de geossintéticos ou colunas granulares encamisadas.

Esta obra é uma referência essencial para profissionais e estudantes de engenharia na compreensão do comportamento de aterros sobre solos moles, no projeto e execução – com sucesso – dessas obras.

Marcio de Souza Soares de Almeida: Obteve a Graduação em Engenharia Civil na UFRJ em 1974; MSc. na COPPE 1977 quando entrou para os quadros da COPPE, onde desde 1994 é Professor Titular. Orientou mais de 70 Teses de Doutorado e Mestrado. Obteve o PhD na University of Cambridge, Inglaterra em 1984. Pós-Doutorado na Itália e Noruega em 1991-92. Foi Academic Visitor das Universidades de Cambridge, Oxford, Western Austrália e ETH-Zurique. Tem dois Prêmios ABMS: Terzaghi e José Machado. É Pesquisador IA CNPq e “Cientista do Nosso Estado” FAPERJ. Participou duas vezes do CA-EC do CNPq (é atualmente membro titular 2013-2016) e de duas Avaliações Trienais da CAPES. Coordenou o Programa de Engenharia Civil e a Área Interdisciplinar de Engenharia Ambiental da COPPE/UFRJ. Participou de 2 PRONEX/MCT. É atualmente um dos líderes de pesquisa do INCT “REAGEO”. Coordena o MBA “Pós-Graduação em Meio Ambiente” da COPPE desde 1998.

Foto: retirada do site lcb Consultoria Ambiental – Obra de reforço de aterro sobre solo mole – TRANSOESTE

Comentários

  1. Este livro “Aterros sobre solos moles” é uma constante fonte de consulta em meus trabalhos de dimensionamento e projeto para reforço do solo mole de fundação. Muito obrigado Prof. Márcio por disponibilizar seus conhecimentos.

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