Entrevista com Celso Dal Ré sobre o livro Geologia do Brasil

O recente lançamento de Geologia do Brasil, obra com 900 páginas, reúne pesquisadores de diferentes áreas da Geologia em uma publicação única, que apresenta e atualiza o conhecimento geológico, de forma completa e didática, para estudantes e profissionais da área. Convidamos um dos organizadores do livro, Celso Dal Ré Carneiro, Geólogo, com mestrado e doutorado em geociências, professor e chefe do Departamento de Geociências Aplicadas ao Ensino do Instituto de Geociências da Unicamp, para falar um pouco do livro Geologia do Brasil e da participação de uma das maiores autoridades científicas brasileiras no campo das Geociências, Fernando de Almeida, falecido recentemente.

Comunitexto: Como surgiu a ideia de produzir um novo volume de Geologia do Brasil?

Celso Dal Ré Carneiro: Quando terminamos de produzir, no ano 2000, um pequeno livro de 80 páginas sobre “Geologia”, para o Projeto Ciência Hoje na Escola (Série Ciência Hoje na Escola, v. 10), sugeri à SBPC que aprovasse uma edição similar, despretensiosa, sobre “Geologia do Brasil”. A obra figuraria ao lado de outra, denominada “A Terra no espaço”, na mesma série. As propostas acabaram não sendo aprovadas. A ideia foi amadurecendo, mas sem perspectiva de financiamento concreto. Anos depois, em uma conversa na sala de Shoshana Signer, na Oficina de Textos, Andrea Bartorelli e eu retomamos a possibilidade de escrever um livro sobre “Geologia do Brasil” e pensamos em convidar o Prof. Yociteru Hasui, que tinha sido nosso orientador (a ambos), além de um dos maiores conhecedores da Geologia do Brasil.

O convite foi feito e ele aceitou. O Prof. Fernando de Almeida já estava automaticamente envolvido, desde a obra “Geologia” do ano 2000. O apoio financeiro da Petrobras ajudou a viabilizar uma obra com 900 páginas finais. É preciso destacar que esse apoio resulta do esforço concentrado de Murilo Andrade Lima Lisboa e eu, após muitas idas e vindas ao Rio. Ao final, incluímos um agradecimento especial ao apoio e incentivo firmes de Shoshana à obra.

CT: Antes, foram publicados dois livros sobre a Geologia do Brasil: o primeiro cobrindo o período Pré-Cambriano e o outro sobre o período Fanerozóico. Ambos são de 1984 e estão esgotados e ultrapassados. Porque o setor demorou tanto tempo até que publicassem novamente uma obra completa como essa?

CDRC: Escrever um livro “Geologia do Brasil” deve ter sido ideia acalentada por muitos colegas. O desafio é realmente muito grande. Durante esses anos todos (são quase 30 anos) saíram algumas edições que acompanharam os sucessivos mapas da CPRM, mas são livros que correspondem mais a notas explicativas dos mapas do que a textos de revisão e síntese sobre o tema.

CT: Qual a importância desta obra para o setor de Geologia? 

CDRC: Por se tratar de uma obra que reúne textos de revisão e síntese sobre “Geologia do Brasil”, esta edição pode ser benéfica, como uma contribuição para os cursos superiores nacionais – não apenas os de Geologia, mas em muitas outras áreas de formação universitária – que dependem do conhecimento geocientífico para bem conduzir suas pesquisas e trabalhos profissionais. Tem ainda a finalidade de “cutucar” geólogos e estudantes para que contribuam com suas observações nos estudos em que estão envolvidos, sob a perspectiva de que o conhecimento evolui continuamente e os dados são suscetíveis a revisões constantes.

CT: O livro apresenta diversas contribuições de importantes geólogos; como foi para os organizadores concatenar todas essas participações? 

CDRC: Tivemos a honra de trabalhar, Bartorelli e eu, com dois experientes geólogos (os Profs. Yociteru Hasui e Fernando Almeida), que souberam nos ajudar a reunir as visões contraditórias e enxergar soluções para problemas conceituais que em parte já foram resolvidos, ou são desafios situados na fronteira do conhecimento. Depois que todo o furacão passou, agora posso contar muitas histórias divertidas (algumas são bem engraçadas, outras nem tanto, mas fazem parte do esforço de reunir mais de 50 autores em uma obra de fôlego).

Não é tarefa simples organizar uma obra desse porte. Infelizmente, muito teve de ser cortado, para chegar a um produto que coubesse em uma prateleira. O patrocínio da Petrobras teve início por ocasião da homenagem que foi prestada ao Prof. Fernando com o livro “Geologia do Continente Sul-Americano: evolução da obra de Fernando Flávio Marques de Almeida”, editado pela Beca em 2004. Esse fato notável, e até certo ponto inédito, proporcionou a edição de três obras de grande envergadura, em um intervalo de oito anos: o livro Continente Sul-Americano tem 673 páginas; Ab’Sáber, 588p; Geologia do Brasil, 900p.

Os organizadores do livro, a partir da esquerda: Andréa Bartorelli, Celso Dal Ré Carneiro, Yociteru Hasui e Fernando Flávio Marques de Almeida. Foto: Antonio Scarpinetti

CT: O senhor escreveu o capítulo, Corpos Alcalinos de Poços de Caldas, Itatiaia e São Sebastião, com o grande mestre Fernando de Almeida, além de juntos terem feito a revisão crítica o que melhorou e muito a versão final da obra. Como foi para o senhor ter dividido seu trabalho com este grande geólogo nesta importante obra?

CDRC: A resposta à questão anterior antecipa a mesma ideia. Somente quem conheceu e pôde conviver tanto tempo com a maior autoridade científica brasileira no campo das Geociências sabe o que significa a expressão “um sábio, humilde e modesto”. Ela se aplica ao Prof. Fernando como uma luva. Foi assim o tempo todo, todos esses anos.

O Professor jamais se utilizou de sua autoridade científica para se contrapor a uma nova proposta, mas examinava tudo com devido o cuidado, apoiado em todo o seu enorme arcabouço de conhecimento, para depois dizer se era contra, a favor, ou se ainda achava necessário estudar e pesquisar mais o tema, antes de opinar. Suas palavras sempre foram recheadas de profundo senso de responsabilidade e respeito pela Ciência.

CT: Como foi a contribuição de Fernando de Almeida para a obra Geologia do Brasil?

CDRC: Inestimável. Ele leu, releu e examinou com grande critério e atenção cada linha dos capítulos e, muitas vezes, encontrava minúcias relevantes que nenhum de nós tinha sido capaz de detectar. Em uma de nossas últimas conversas, chegou a dizer que estava aprendendo muito, nos últimos tempos, sobre “Geologia do Brasil”.

CT: O senhor trabalhou ao lado do Geólogo desde que se formou na USP, primeiro como seu assistente e depois no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) por 18 anos. O que poderia dizer de mais relevante neste tempo de convívio com o Pesquisador?

CDRC: O IPT foi importantíssimo para o Professor Fernando. Ele teve ali seu primeiro e também seu último emprego formal. Ao se desligar, em 1995, já tinha ultrapassado os 70 anos de idade, mas não tinha perdido um micronésio de sua lucidez. Durante esses 18 anos finais de trabalho no IPT, o Professor orientou pesquisas, participou ativamente de projetos, foi ao campo inúmeras vezes e elaborou trabalhos de enorme importância científica – alguns dos quais serviram de base para essa edição de “Geologia do Brasil”.

Tudo a ver

 

A Editora Oficina de Textos juntamente com um dos organizadores do livro Celso Dal Ré Carneiro fará o lançamento e sessão de autógrafos do livro Geologia do Brasil no 13º Simpósio de Geologia da Amazônia no dia 24 de Setembro no Centro de Eventos Benedito Nunes (UFPA).

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