Construção da escola influencia aprendizado

Clipping

A correlação é imediata: quando se pensa em sala de aula, logo vem à mente um cômodo retangular, com carteiras dispostas em filas e a mesa do professor à frente. Exceto por uma ou outra experiência “alternativa”, o modelo com séculos de uso é o que impera, tanto em escolas públicas como nas salas de aula da rede privada.

“Essa disposição facilita ao professor manter a ordem e o silêncio, mas não é o melhor para o aprendizado, não estimula a criatividade. Se você passa o tempo todo olhando para a nuca de seu colega, já não o valoriza”, diz a arquiteta Doris Kowaltowski.

Professora da Universidade de Campinas (Unicamp), Doris acaba de lançar o livro Arquitetura escolar: o projeto do ambiente de ensino, com o objetivo de mostrar que a formação do aluno depende não apenas do professor e do material didático, mas também do espaço que frequenta.

A lista de locais transcende os metros quadrados da sala de aula. Um projeto arquitetônico escolar deve levar em conta do projeto paisagístico à altura do mobiliário adequada para cada faixa etária.

Em uma pesquisa realizada com estudantes em fase de alfabetização de escolas públicas de Campinas, a autora pediu que as crianças desenhassem o que gostariam que houvesse no lugar em que estudam.

O resultado mostrou que a maior parte das meninas gostaria que a escola tivesse parquinho e os meninos, campo de futebol. Foram raros os desenhos que mostraram um globo ou uma estante de livros.

“Os alunos não pedem uma biblioteca porque é algo que não lhes parece atraente. Pelo que eles conhecem de biblioteca, não conseguem imaginar que pode ser um espaço bonito e aconchegante, com poltronas confortáveis, por exemplo.”

Não há, porém, uma fórmula pronta. Pelo contrário. Uma das peculiaridades de um projeto arquitetônico escolar é que ele não deve obedecer a um formato padrão. A construção precisa levar em consideração as características físicas e sociais do entorno do ambiente.

“Cada comunidade tem os seus próprios valores. Uma escola vai ser mais bem aceita e bem cuidada à medida em que a população é inserida”, explica Doris. “Uma boa estratégia para facilitar esse convívio é apresentar uma maquete do projeto e ouvir o que os futuros usuários têm a dizer.”

Foi o que ocorreu na favela Maracanã, que tem cerca de 6 mil habitantes e fica na zona sul de São Paulo. Por lá, a construção de uma creche foi resposta a um pedido antigo, feito há 20 anos pela população. Mas os moradores só se sentiram envolvidos após serem convidados a participar da construção. O mestre de obras era da comunidade e, no início, voluntários da região ajudaram em tarefas como construir a laje. Inaugurada neste ano, atende a 64 crianças.

Adaptações. Na prática, no entanto, a construção de um ambiente ideal de aprendizado extrapola a planilha do arquiteto e esbarra em obstáculos antigos e complexos. Na dissertação de mestrado que defendeu no ano passado na Unicamp, a arquiteta Marcella Deliberador entrevistou 44 escritórios de arquitetura que prestam serviço à Fundação de Desenvolvimento da Educação, órgão da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo que é responsável pela construção e reforma dos ambientes escolares.

Entre os problemas apontados pelos arquitetos, a topografia foi o pior. “Muitas vezes, o terreno da escola é o pior do loteamento.”

A creche da favela Maracanã, por exemplo, fica em uma área irregular e, por isso, a construção precisou desconsiderar algumas diretrizes.

“A orientação é para que as escolas sejam térreas e tenham entrada de veículos em duas ruas”, explica o arquiteto Adriano Bechara, que coordenou o projeto. “Mas o terreno era pequeno demais para não construir um nível superior e, no meio da favela, não passa nem carro. Para que faríamos duas entradas de veículo?”, argumenta.

Se nas escolas públicas o terreno não favorece, no caso dos colégios privados a questão é convencer o dono sobre a importância das áreas livres, diz o arquiteto Vinicius Andrade, do escritório Andrade Morettin. “Em muitas particulares, tudo segue a lógica do lucro. Se o terreno é na área nobre, o proprietário quer aproveitar todo cantinho. Daí, capricha na estética, que fica arrojada, mas por dentro continua apertada e, pior, inacessível, com muitas escadas.

Acessibilidade. Reformar as escolas antigas para atender aos deficientes físicos é outro desafio da arquitetura. “Adequar é mais difícil que construir uma nova. Não é só fazer uma rampa aqui, outra escada ali”, diz Pedro Amando de Barros, do escritório Apiacás, responsável pela reforma da escola Caetano de Campos, no bairro da Consolação.

As obras começaram no ano passado e estão em curso, obedecendo a um cronograma que tem de respeitar a rotina dos alunos. “É preciso prever as etapas e deixar para o período de férias as intervenções mais substanciais.”

AS MODIFICAÇÕES ARQUITETÔNICAS

Império: Padrão pedagógico e arquitetônico voltado para a educação religiosa. A escola funcionava na casa do professor ou em paróquias.

Primeira República (1890-1920): A maioria dos edifícios ficava em áreas contíguas às praças. Os prédios eram imponentes, com pé-direito alto e imensas escadarias.

De 1921 a 1959: A semana de arte moderna e a revolução de 1930 influenciaram a arquitetura. Os edifícios deixaram de ser compactos, e as construção passaram a ser de concreto armado, com grandes corredores.

De 1960 a 1990: A demanda escolar aumentou, e o sistema de construção foi simplificado. As salas eram distribuídas num grande corredor com paredes de alvenaria e teto de laje pré-moldada.

De 1990 a 2010: A arquitetura é bastante padronizada. Em São Paulo, predomina a edificação de três pavimentos. Os projetos incorporam a quadra de esportes coberta, que facilita o uso do espaço nos fins de semana pela comunidade.

Móveis pesados dificultam diferentes configurações da sala

Se a tradicional sala de aula com 30 crianças em fila e um professor na frente não serve, como deve ser o espaço onde os estudantes passam a maior parte do tempo?

Para a arquiteta Doris Kowaltowski, as mudanças fundamentais são simples e não encarecem a construção.

Mobiliários mais leves, por exemplo, permitem que se faça arranjos variados. “Como os móveis são pesados, as crianças não conseguem mover as cadeiras de um lado a outro. Ficamos reféns das faxineiras. Do jeito que elas arrumam, fica.”

Além disso, explica a pesquisadora, é preciso investir nos confortos térmico, visual e acústico. Em um ambiente escuro, calorento e com ruído em excesso, não há professor que consiga ensinar nem aluno que se interesse pela aula.

Para o clima brasileiro, quente em praticamente todo o País, é preciso proteger as salas de aula contra a incidência do sol e favorecer a ventilação. O que não se resolve com cortina e ventilador. A melhor sombra é a natural, que vem da distribuição de arbustos e árvores. Para que o ar circule, é preciso ventilação cruzada, o que não se consegue em grande parte das escolas, construídas com um corredor no meio e salas dos dois lados.

O problema do ruído pode ser amenizado se as salas tiverem revestimento interno que diminui a reverberação e se os ambientes de recreação e as áreas de atividades esportivas estiverem distantes de onde estão as classes, salas de leitura e a biblioteca.

O conforto visual é o mais fácil de ser concebido e depende principalmente da correção de erros comuns, como a prática de pintar as vidraças com cores escuras para evitar a incidência do Sol, o que, além de não resolver o problema do calor, ainda escurece o ambiente.

Outra falha usual é usar cores escuras nas paredes, para esconder a sujeira. As salas precisam ter vidros, paredes e tetos claros para aproveitar ao máximo a iluminação natural.

Fonte: Estadão, 2 de maio de 2011

Reportagem de Ocimara Balmant, especial para o Estado

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