Paradigmas da arquitetura moderna

Especial dia do arquiteto – Paradigmas da arquitetura moderna     

“Se a reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto buscar o infinito…” Oscar Niemeyer

 O esforço para obter eficiência funcional e construtiva é tão antigo quanto a humanidade. Até a cabana mais primitiva tem uma base funcional e construtiva. O paradigma “forma versus função” será sempre uma das questões mais importantes debatida por muitos profissionais da arquitetura ao longo dos séculos.

Como o projetista chega à escolha da forma? Quais os fatores que influenciam a imagem espacial, o tamanho, a escala e o ritmo da massa da edificação, a disposição espacial, a escolha da cor e dos materiais? E, principalmente, até que ponto a forma nasce das necessidades impostas pelo uso previsto?

Em comemoração ao dia do Arquiteto (15/12) a reflexão mais uma vez destas questões é peça fundamental para o entendimento e contextualização do papel do arquiteto na sociedade.

Essas perguntas receberam muitas respostas diferentes no decorrer do tempo, algumas baseadas em considerações teóricas e, muitas vezes, baseadas também em atitudes pessoais e influenciadas pelo espírito da época.

O que logo se conclui é que a forma final de uma edificação resulta de um processo complexo de tomada de decisões no qual muitos fatores têm o seu papel. Há quem defenda que a forma é completamente determinada pela função: isto é, a forma segue a função. Outros escolhem a forma como base, primariamente, em considerações artísticas, em metáforas ou no desejo de propagar ideais ou significados específicos. Só depois fazem o melhor para encaixar as funções exigidas na forma escolhida: para este grupo a função segue a forma.

No entanto, o contexto em que ocorre a edificação também tem papel importante na escolha da forma. As características do local, o tempo de construção, as condições sociais, a moda, as restrições jurídicas e econômicas etc., influenciam o projeto.

Além disso, a edificação deve cumprir mais do que as funções exigidas pelo uso: há funções climatológicas, culturais e econômicas. Tudo isso aumenta a complexidade da relação entre forma e função.

A forma é determinada pela eficiência funcional e construtiva

Para muitos arquitetos, o projeto é determinado, em boa medida, pelo esforço de se obter eficiência funcional. A forma e a disposição da edificação têm de dar apoio eficaz e eficiente às atividades que ela abriga. A palavra mais usada quando o motivo primário do projeto é a eficiência funcional é funcionalismo. É claro que os projetistas funcionalistas conhecem bem a importância da estética e do significado, mas consideram que essas características derivam mais ou menos do propósito e da conveniência.

De acordo com o primeiro desses princípios, o projeto deve basear-se primariamente no valor de utilidade e nos desejos e necessidades dos usuários.

Edifício da Nationale Nederlanden, em Roterdã. Projeto de A. Bonnema (1987). Esse projeto foi escolhido entre cinco concorrentes, não tanto por ser atraente, mas com base em considerações programáticas. Os fatores decisivos foram as vantagens oferecidas em termos das disposições possíveis do espaço para escritórios, uma proporção alta entre área bruta e área líquida, um ambiente de trabalho eficiente e outras características de usabilidade. Foto: divulgação.

Edifício da Nationale Nederlanden, em Roterdã. Projeto de A. Bonnema (1987). Esse projeto foi escolhido entre cinco concorrentes, não tanto por ser atraente, mas com base em considerações programáticas. Os fatores decisivos foram as vantagens oferecidas em termos das disposições possíveis do espaço para escritórios, uma proporção alta entre área bruta e área líquida, um ambiente de trabalho eficiente e outras características de usabilidade. Foto: divulgação.

Edifício Birmann 21, sede da Editora Abril em São Paulo, projeto do escritório SOM – Skidmore, Owings & Merrill LLP (1996), outro exemplo atual de funcionalismo. Foto: divulgação.

Consideram-se artificiais os princípios geométricos da forma não derivados das exigências dos usuários. A edificação deveria, em primeiro lugar, exprimir o seu propósito e as atividades, pelo menos as principais, que ocorrem dentro dela.

Não deveria ser necessário nenhum auxílio adicional, como placas, para indicar a função. A estrutura de sustentação, o material e os serviços técnicos também deveriam ser reconhecíveis. O lema “forma e função são idênticos” vai um passo adiante. Nele a ideia subjacente é que a funcionalidade leva automaticamente à beleza. De acordo com o segundo princípio, “a forma segue a construção”, a forma vem da construção e do material, ambos os quais deveriam ser usados “com sinceridade”, e não, por exemplo, ficar escondidos atrás de acréscimos não construtivos. Em primeiríssimo lugar, o arquiteto é um projetista construtivo. As construções têm beleza própria.

A forma segue o contexto

De acordo com essa abordagem, a forma é determinada principalmente pelo contexto. Os fatores que exercem influência significativa são as características urbanas e arquitetônicas do terreno, a sua situação geográfica (inclusive a distância do centro da cidade), o contexto sociocultural, o contexto histórico, o contexto jurídico (legislação e normas) e o contexto econômico.

Torres Petronas, em Kuala Lumpur, na Malásia. Projeto de Cesar Pelli (1998). As torres foram na época a edificação mais alta do mundo, com uma altura de 452 m. Trata-se de um símbolo da modernização da Malásia e do seu perfil ascendente no cenário internacional. Elas rompem com a ortodoxia modernista por serem simetricamente dispostas no terreno, com desenho figurativo. O projeto das torres atende a características formais da cultura islâmica dominante. Ao estudar a arquitetura islâmica, Pelli descobriu que a geometria repetitiva é fundamental para entender as edificações dos países predominantemente muçulmanos. As torres representam um marco e um portal para uma evolução nova e importante.

A importância deste último fator exprime-se no lema “a forma segue a economia” ou “a forma segue o lucro”. Aqui o projeto é guiado pelo esforço em criar objetos que são utilizados, de forma eficaz e eficiente, aplicando- se os meios disponíveis tanto no processo de projetar (por exemplo, com a aplicação de métodos de projetar racionais) quanto no projeto propriamente dito. Um lema aparentado, “a forma segue o fracasso”, indica que a escolha da forma também pode basear-se em experiências negativas com variações anteriores do projeto.

A forma é autônoma

De acordo com essa abordagem, a forma não deriva primariamente dos usuários nem da construção, mas de princípios de forma, talvez geométricos, e da experiência perceptiva provocada por tais princípios.

Os lemas podem ser “a forma segue a estética”, “a forma segue o significado” e “a forma segue a diversão”, em que “diversão” refere-se tanto ao prazer sentido pelo projetista quanto ao prazer que o observador ou o usuário têm com a edificação. Mas outro lema é “a forma precede a função, que reflete a rejeição da abordagem puramente funcional.

Museu de Arte Contemporânea de Niterói, projeto de Oscar Niemeyer (1991-1996). O próprio Niemeyer descreve assim o projeto: “O terreno era estreito, cercado pelo mar e a solução aconteceu naturalmente, tendo como ponto de partida o apoio central inevitável. Dele, a arquitetura ocorreu espontânea como uma flor. A vista para o mar era belíssima e cabia aproveitá-la. E suspendi o edifício e sob ele o panorama se estendeu mais rico ainda. Defini então o perfil do museu. Uma linha que nasce do chão e sem interrupção cresce e se desdobra, sensual, até a cobertura” (Niemeyer, 1997).

Museu Guggenheim, em Bilbao. Projeto de Frank Gehry (1993). Bilbao vem passando por um processo de transformação, e de cidade portuária industrial, transforma-se em centro de comércio e cultura. O museu pretendia, em parte, pôr Bilbao no mapa-múndi. O projeto resultou da busca intuitiva de uma forma atraente. Dezenas de maquetes foram feitas durante a busca da forma certa. Depois a forma foi digitalizada em três dimensões e aberta no CATIA, um programa avançado de computador que permitiu a fabricação das placas de revestimento de titânio no tamanho exato. Foto: divulgação.

Embora se possa reconhecer que alguns projetos e projetistas pertencem claramente a uma ou outra dessas abordagens, a maioria segue um caminho pelo meio. Eles vêem a funcionalidade como importante, mas não como única motivação. A função, a forma e a construção afetam-se umas às outras. O contexto também tem o seu efeito. Portanto, a obtenção de uma forma satisfatória exige o equilíbrio dos muitos fatores que a influenciam.

Tudo a ver

Para saber mais sobre este importante paradigma, adquira a obra Arquitetura sob olhar do usuário de Theo J. M. van der Voordt e Herman B. R. van Wegen. Para este tema os autores examinam várias ideias sobre a relação entre forma e função, com referência a diversos movimentos da arquitetura. Fazem uma rápida viagem pela história e apresenta os pontos de vista de alguns arquitetos. Lançado este ano no Brasil, Arquitetura sob olhar do usuário mostra como a qualidade funcional pode ser expressa em um programa consistente, como o ambiente afeta a saúde e bem-estar. Além do mais, a obra apresenta uma metodologia para realizar uma avaliação pós-ocupação, com métricas.

O dia do arquiteto, antes celebrado no dia 11 de dezembro, passou a ser comemorado no dia 15 de dezembro, por resolução do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil. A nova data homenageia o dia do nascimento de Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares.

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