Energia nuclear ainda não é confiável, diz especialista

Para o professor Cylon Gonçalves, tragédia no Japão expõe as fragilidades das usinas.

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A exposição das barras de combustível do reator 2 do complexo japonês Fukushima Daiichi, atingido pelo terremoto de sexta-feira (11/3) mostrou ao mundo a fragilidade das usinas nucleares, disse o Coordenador Adjunto de Programas de Cooperação Internacional e Energia da Fapesp e autor do livro De sol a sol, Cylon Gonçalves, em entrevista exclusiva ao portal Comunitexto. Para ele, a energia nuclear não é e nunca será totalmente “confiável”.

“O que torna a energia nuclear a pior forma possível de energia (seguida de perto pelas energias fósseis, como o petróleo) são os impactos de longo prazo de seus riscos, seja de acidentes (raros), seja os muito mais graves riscos rotineiros de sua operação (tratamento dos rejeitos nucleares). Esses recebem menos atenção, mas são muito piores dos que os que ocasionalmente ganham as manchetes dos telejornais, como este agora no Japão.”

Indagado sobre as possibilidades de a humanidade conseguir construir uma usina totalmente resistente às catástrofes naturais, Cylon é enfático e diz que isso não será possível, devido à  relação custo-benefício imposta pela realidade econômica, que limita o custo de engenharia que o empreendimento pode suportar.

“Não existe e nunca existirá proteção perfeita. É a história do carro blindado. Se eu for suficientemente paranoico ou considerar que sou um risco real de sequestro, posso optar por pagar mais por um carro blindado. Mas, se o assaltante vier com uma bazuca, em vez de pistola calibre 45, nem meu carro blindado vai me proteger. Em algum momento, tenho de decidir quanto quero/posso pagar, por qual nível de proteção.”

O desastre no Japão gerou debates em todo o mundo sobre a segurança dos programas nucleares e fez países reavaliarem o seu uso. Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel, cujo governo vem sendo duramente criticado por manifestantes pela impopular decisão de aumentar a capacidade nuclear do país, anunciou um congelamento de dois meses em tais projetos, informou o jornal Die Welt.

Nos Estados Unidos, o jornal americano The New York Times publicou que o pouco apoio que esse tipo de energia tinha no país pode ter se desfeito ante os problemas enfrentados pelos japoneses. Também grande produtora de energia nuclear, a Índia determinou a revisão dos sistemas de segurança de todas as usinas nucleares do país para a comprovação de que podem resistir a catástrofes naturais.

No Brasil, o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Gonçalves, disse que os danos em usinas japonesas podem abalar o programa nuclear brasileiro. Retomado no segundo mandato do então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, com a decisão de levar adiante as obras de Angra 3, o programa atual prevê a construção de mais quatro usinas no país até 2030.

Uma segunda Chernobyl?

Para Cylon, ainda é cedo para dizer; no entanto, tudo indica que o acidente é mais sério do que revelam os comunicados oficiais. A própria França disse que o acidente no Japão é bem mais grave do que se imagina. Ele pode ser até de nível 6, em uma escala de 1 a 7 – e não 4, como diz Tóquio. Nesta segunda (14/3), mais dois reatores explodiram e a radiação já foi detectada a 160 km do local.

O acidente na usina de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, foi um dos piores da história.  Uma explosão do reator atômico liberou uma imensa nuvem radioativa que contaminou uma área de milhares de quilômetros quadrados.  Os mortos por contato direto com a radiação – primordialmente trabalhadores da usina – chegaram a 28. No entanto, estudos internacionais apontam que até 60 mil pessoas morreram ou ainda vão morrer em virtude de doenças causadas pela contaminação.

A radiação em altas doses tem efeitos graves sobre o corpo humano, tanto no curto quanto no médio prazo. A exposição a elevados níveis de radiação também pode levar ao impedimento da divisão celular, a danos permanentes às células e a modificações na estrutura genética das células reprodutoras. Na prática, isso significa que pessoas expostas à radiação podem desenvolver diversos tipos de câncer, como a leucemia, caracterizada pela reprodução descontrolada dos glóbulos brancos no sangue.

Energia Nuclear

Uma usina nuclear de bom tamanho é capaz de gerar cerca de 1 GW de eletricidade, o equivalente a 1.000 MW (megawatts). Em 2007, havia em operação no mundo um total de 435 centrais nucleares, com uma capacidade instalada de 367 GW, muitas delas na fase final de seu ciclo de vida. Atualmente mais de 400 reatores nucleares funcionam em 30 países.

As usinas nucleares fornecem aproximadamente 16% da eletricidade do mundo (dados de agosto de 2008). Alguns países dependem mais da energia nuclear para obter eletricidade que outros. No Japão, 80% da eletricidade é gerada a partir da energia nuclear, de acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA). Na França, esse índice chega a 75%.  Nos Estados Unidos, a energia nuclear fornece 23% da eletricidade total. No Brasil, menos de 3% da energia gerada tem origem das usinas nucleares de Angra dos Reis.

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