Lançamento Roteiro de Cartografia: Entrevista com os autores

 Nesta semana a Editora Oficina de Textos está lançando o tão esperado livro Roteiro de Cartografia de Paulo Menezes e Manoel Fernandes, importante referência para alunos, pesquisadores e profissionais envolvidos com a Cartografia. A obra constrói o conhecimento cartográfico de forma brilhante e didática com conceitos clássicos e modernos, sua história e grandes transformações até a Cartografia digital. Aborda seus campos temáticos e os sistemas de coordenadas, referências e projeções, assim como a intrínseca relação da Cartografia com o Geoprocessamento e a arte da representação gráfica de informações em mapas. Os autores nos concederam uma entrevista exclusiva sobre o livro, nela eles dissertam sobre os desafios, destaques e importância da obra além de outras novidades. Confira abaixo! 

Comunitexto: Quais foram os maiores desafios encontrados na elaboração do livro Roteiro de cartografia?

Paulo Menezes e Manoel Fernandes: Creio que um dos maiores desafios foi a transformação da Apostila de Cartografia, que era passada aos alunos de uma maneira informal, para a sua apresentação como realmente um livro. Uma Apostila é elaborada com um conteúdo mais flexível, às vezes sem maiores preocupações de citações de obras e conceitos. Assim, todas as citações tiveram que ser revistas e atualizadas, além das figuras que ganharam uma roupagem nova, sendo que algumas foram reconstruídas do zero. Para um livro tudo tem que estar em perfeita ordem, então este trabalho foi bastante árduo.

Outro grande desafio foi a atualização de uma série de temas abordados no livro, visto que, embora não pareça, a Cartografia é uma ciência dinâmica cujo conceito e definições vão se atualizando ao longo do tempo. Esta característica ganha grande dinamismo junto com o advento da ciência da computação que trouxe maior visibilidade a Cartografia, tornando-a mais próxima do nosso cotidiano.

CT: Qual o principal objetivo do livro e para qual público o livro Roteiro de Cartografia é destinado?

PM e MF: O objetivo principal é atender a um público que esteja iniciando o contato com a Cartografia. Ele não é superficial, porém não tem a profundidade para quem vai se dedicar a trabalhar profissionalmente com a Cartografia.

A ideia da obra é dar uma introdução e servir de trampolim para aqueles que desejarem se aprofundar na Ciência Cartográfica. Assim, este livro deve ser encarado como um material importante de apoio para alunos de Cartografia em diversas áreas do conhecimento, que a usam como instrumento e não como fim, como alunos dos cursos de Geografia, Engenharia Ambiental, Geologia, Turismo, entre outros.

Qual a importância da obra para a ciência da cartografia e para o ensino desta no Brasil?

PM e MF: Fizemos o livro baseado no que desenvolvemos no ensino da Licenciatura e Bacharelado em Geografia, no Departamento de Geografia da UFRJ. Obviamente recebemos alunos de outras áreas, tais como Engenharia Ambiental, Geologia, Bacharelado de Ciências da Matemática e da Terra e tendo inclusive já recebido alunos dos cursos de Relações Internacionais e recentemente da Filosofia. Para cada um deles a Cartografia apresenta-se com um determinado perfil de aplicação. Assim o livro pode atender um grande público de estudantes que estejam iniciando o estudo da Cartografia e seus conceitos.

Quais são os maiores destaques do livro?

PM e MF: Em primeiro lugar o conteúdo e a sua ordenação em uma ordem lógica, sem atropelar conceitos, levando ao aluno a absorver de uma forma mais natural os conhecimentos apresentados. Observe-se que o conteúdo segue bem perto, o programa da disciplina de Cartografia e Cartografia Temática da UFRJ. Depois a linguagem de comunicação, tendo-se optado por uma linguagem mais formal, mas de tal forma que não complique o seu entendimento por parte do leitor. Por outro lado apresentam-se os conceitos e os seus relacionamentos atuais da Cartografia e Ciência da Geoinformação, mostrando a forma atualizada de se ver e aplicar a Cartografia.

CT: Qual a importância e as aplicações da cartografia para os estudos ambientais?

PM e MF: Os estudos ambientais se caracterizam por envolver conjuntos de informações geoespaciais, suas interações, análises e conclusões. Desta forma a sua obtenção, tratamento, análise e visualização de resultados tratam diretamente de processos que envolvem e necessitam de conhecimentos cartográficos, para que sejam confiáveis. Em certos casos a Cartografia funciona como ferramenta de apoio e produto para estes estudos. Em outros funciona como peça básica de trabalho da informação geográfica.

De uma maneira mais geral a Cartografia deve ser encarada como um instrumento de construção de modelos de representação da realidade, o que facilita a interpretação, análise e tomada de decisão sobre determinados fenômenos com expressão espacial, como o de ordem ambiental.

O livro cita que a tecnologia SIG é “a mais poderosa geotecnologia de geoprocessamento, indispensável em qualquer projeto de cunho integrativo”. Como essa tecnologia beneficiou essa ciência?

PM e MF: Conceitualmente SIG é um sistema de hardware e software utilizado para a o armazenamento, recuperação, tratamento, análise, visualização e representação de informações geográficas. Nesse contexto as informações podem estar armazenadas referenciadas a um sistema terrestre, projetivo e multiescalar. Podem também ser oriundos das mais diversas fontes de informações, tais como sensores remotos, GNSS, topografia e mesmo de documentos cartográficos, tais como mapas, cartas e outros.

Os SIG diferem de sistemas CAD e outras aplicações computacionais, principalmente devido ao seu referenciamento terrestre ou projetivo (projeção cartográfica), podendo ser reprojetado de um sistema para outro e levados em conjunto para uma base de dados comum. Desta forma as informações em geral podem ser realinhadas e integradas a diferentes sistemas de coordenadas. Por outro lado as informações computacionais têm que estar topologicamente coerentes, ou seja, definidos os relacionamentos espaciais entre as diversas feições, o que vai permitir a realização de processos analíticos nos SIG.

Assim, a partir de conjuntos de informações geográficas, criam-se novas informações vindas dos processos analíticos e, em consequência, suas representações ou novos mapas. Em resumo novas informações cartográficas representadas em novos mapas.

Os temas abordados nos capítulos 10 e 11 (Projeto e apresentação gráfica e Mapeamento qualitativo e quantitativo), não são fáceis de achar, mesmo na bibliografia internacional. Qual a importância desses capítulos para os estudantes e profissionais da área?

PM e MF: Como já ressaltamos, o livro tem caráter de fornecer uma visão de todo o trabalho da Cartografia, incluindo-se aí o Projeto Cartográfico e sua apresentação. Cada trabalho cartográfico deve em princípio se basear em aspectos dos objetivos que deverá atingir. Isto dará suporte as especificações do projeto e definição de qualidade das informações que serão adquiridas e a qualidade final do trabalho.

Levando-se em conta que um dos principais produtos é um mapa, seja a forma, analógica ou digital obtida, o conhecimento do processo nesse momento alerta para a importância dessa consideração. Da mesma forma, o mapeamento qualitativo e quantitativo, refere-se ao tipo de informação que se está tratando, sendo necessário o conhecimento das representações que são possíveis associar à estes tipos de informações.

Sobre os autores

Paulo Márcio Leal de Menezes é Oficial Reformado do Quadro de Engenheiros do Exército Brasileiro, Mestre em Sistemas e Computação pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) e Doutor em Geografia pela UFRJ. Atualmente é Vice-Presidente para Assuntos Internacionais da Sociedade Brasileira de Cartografia, Vice-Presidente da Associação Cartográfica Internacional (ICA/ACI), Coordenador da Comissão/ Grupo de Trabalho Conjunto da UGI (União Geográfica Internacional) e da ICA em Toponímia e professor adjunto da UFRJ, onde é o coordenador do GeoCart (Laboratório de Cartografia do Departamento de Geografia da UFRJ).

Manoel do Couto Fernandes é Mestre e Doutor em Geografia pela UFRJ, onde atualmente é Professor Adjunto do Departamento de Geografia e vice-coordenador do GeoCart. Atua na área de Geociências, com ênfase em Geoecologia e Geoprocessamento, além de SIG, MDE, Geo-hidroecologia e Geomorfologia.

Deixe sua opinião!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *