Especialistas falam sobre deslizamentos

Segundo artigo publicado por Antonio José Teixeira Guerra e Maria do Carmo Oliveira Jorge na oitava edição da revista Pensar Verde (clique aqui para acessar) sobre os desastres na região serrana de Petrópolis, no Rio de Janeiro, desde 1980 este local é atingido por deslizamentos que provocam a morte dos moradores, destruição de casas e ruas e outros problemas.

Entre as principais causas destas catástrofes está a combinação de fatores naturais como chuvas concentradas, encostas com grande declividade e solos rasos, além dos problemas sociais que levam à ocupação desordenada destas regiões. Para contar um pouco mais sobre as causas, as consequências e a prevenção dos movimentos de massa, convidamos os especialistas Antonio José Teixeira Guerra e Maria do Carmo Oliveira Jorge, ambos integrantes do Laboratório de Geomorfologia Ambiental e Degradação dos Solos (Lagesolos) da UFRJ, para uma entrevista exclusiva. Confira!

CT: No livro Processos erosivos e recuperação de áreas degradadas, os senhores mencionam que existem três classificações de movimentos de massa. Quais são eles e quais as diferenças?

Antonio Guerra e Maria do Carmo Oliveira Jorge: Existem várias formas de se classificar movimentos de massa, mas a mais aceita é que podemos realmente dividir em três grandes grupos: fluxos ou corridas (flows), deslizamentos (slides) e quedas (falls). Podemos ainda incluir outra categoria que é o rastejamento (creep). As diferenças entre eles estão na natureza do processo e dos materiais envolvidos. Enquanto nos fluxos ou corridas há uma grande quantidade de água envolvida (daí inclusive o nome corrida), podendo ser diferenciado entre corrida de lama e corrida de terra, onde no primeiro há mais argila; nos deslizamentos (que são os slides), pode haver menos água envolvida no processo; já nas quedas, a ação da gravidade é o fator mais importante, daí as quedas de blocos, também chamadas de rock falls. Já no rastejamento (creep), o movimento de massa é bem mais lento, quase que imperceptível para aqueles que não são especialistas.

CT: Estes movimentos de massa ocorrem em maior frequência em quais regiões? Ou não existe uma região especifica?

AG e MCOJ: Eles ocorrem no mundo todo desde que haja uma declividade mínima, geralmente em torno de 20 graus, mas no caso dos trópicos, a presença de chuvas torrenciais pode ser um fator deflagrador importante. Os terremotos também podem provocar movimentos de massa. Mas, hoje em dia, a presença do homem, quando ocupa encostas de forma desordenada, é um dos principais fatores detonadores desses movimentos.

Vários são os motivos que levam a ocorrer os movimentos de massa, mas cada vez mais é aceito que o homem é um dos principais agentes responsáveis pela deflagração desses processos catastróficos. Podemos incluir também: alta declividade das encostas, presença de blocos rochosos nessas encostas, o contato entre o solo e a rocha muito abrupto e chuvas concentradas.

CT: Existem maneiras de prever a iminência de um movimento de massa?

AG e MCOJ: Existem várias formas de se prever esses movimentos, por meio da elaboração de mapas de risco, usando geotecnologias para sua elaboração. Os trabalhos de campo, com a coleta de amostras de solo e a determinação das propriedades químicas e físicas dos solos, em laboratório, bem como o uso de fotografias aéreas e imagens de satélite, podem ajudar bastante no prognóstico desses movimentos. Esse trabalho é fundamental, para que se evite a ocorrência de perdas de vidas humanas. Nesses casos, a melhor decisão é a de se remover as populações dessas áreas de alto risco, e/ou se fazer obras de contenção dessas encostas.

CT: Nos casos em que os movimentos são previstos, quais medidas podem ser tomadas para evitá-los ou ao menos amenizar os danos?

AG e MCOJ: Uma delas é a utilização de sistemas de alerta, onde as pessoas podem sair de casa e se concentrar em áreas previamente determinadas para tal. Para isso é preciso que haja campanhas de orientação, bem como de treinamento para que as pessoas saibam como e para onde se dirigir, na eminência de ocorrer um movimento de massa, que pode causar perdas de vidas e danos materiais. Para evitar o movimento de massa, as obras faladas anteriormente podem ser uma solução, mas em casos extremos, a remoção da população pode ser mais barata, mais segura e mais efetiva.

CT: O senhor possui uma estimativa de quantos movimentos de massa ocorrem por ano no Brasil e quantas vítimas fatais já deixaram? 

AG e MCOJ: Não tenho essa estimativa, mas dependendo do ano podem morrer mais de 1.000 pessoas, como foi em 2011 (na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro), quando ocorreu a maior catástrofe já registrada no Brasil. É muito raro um ano onde não ocorram mortes no Brasil, e no mundo também, devido à ocorrência de movimentos de massa, basta chover muito e de forma concentrada. É claro que o homem tem contribuído, através da ocupação desordenada das encostas, para que essas mortes aconteçam.

Cicatriz de deslizamento no bairro do Quitandinha, Petropolis, da catastrofe ocorrida em março de 2013. Foto Antonio Guerra

Cicatriz de deslizamento no bairro do Quitandinha, Petropolis, da catastrofe ocorrida em março de 2013. Foto: Antonio Guerra

CT: Estão ocorrendo ações voltadas para redução de acidentes?

AG e MCOJ: Estão sim, tanto no Brasil como no mundo, mas no caso brasileiro, nós diríamos que ainda de forma tímida. É preciso muito mais investimento, bem como maior relação entre a Defesa Civil e as universidades, onde existem muitos professores e pesquisadores que tem estudado esses processos geomorfológicos e criado modelos de previsão dos movimentos de massa e de outras catástrofes. Essa parceria tem aumentado e melhorado o conhecimento sobre esses processos e quem ganha é toda a sociedade, pois tem havido uma conscientização maior dos cidadãos de que eles podem contribuir para diminuir o número de acidentes e de mortes no Brasil.

CT: As novas tecnologias tiveram impacto nestas ações de prevenção?

AG e MCOJ: Certamente, o uso das chamadas geotecnologias tem acelerado bastante a prevenção dos acidentes, mas é sempre importante chamar atenção do conhecimento teórico-conceitual por parte dos pesquisadores, bem como o conhecimento prático de campo e metodológico sobre um tema de grande importância, que pode contribuir bastante para salvar vidas no Brasil e o no mundo. Os livros que têm sido publicados por professores universitários, em conjunto com seus doutorandos e mestrandos têm grande importância na geração de conhecimento, bem como na formação de profissionais que lidam com essas questões. Os técnicos da Defesa Civil, bem como outros profissionais da iniciativa privada e ligadas aos governos federal, estadual e municipal também tem se utilizado desse material, para melhor conhecer esses processos catastróficos, que causam tantas mortes e perdas materiais.

Tudo a ver

Antonio José Teixeira Guerra e Maria do Carmo Oliveira Jorge, ambos integrantes do Laboratório de Geomorfologia Ambiental e Degradação dos Solos (Lagesolos) da UFRJ, organizaram um livro sobre o tema abordado nesta reportagem para a Oficina de Textos.

O livro Erosão e Movimentos de Massa: Recuperação de Áreas Degradadas e Prevenção de Acidentes conta com capítulos que abordam recuperação de áreas com técnicas de bioengenharia, prevenção de acidentes, o papel das geotecnologias na identificação de feições erosivas e de movimentos de massa, o papel do clima nos estudos de prevenção e diagnostico de erosão dos solos e movimentos de massa e muitos outros.

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