Entrevista: drenagem do Alto Tietê

Em 1998 foi elaborado o Plano Diretor de Macrodrenagem da bacia do alto Tietê, com o intuito de complementar as necessárias obras de melhoria hidráulica dos rios Tietê e Tamanduateí por meio de um conjunto de soluções modulares, por sub-bacias, que permitem a execução por etapas.

Este plano era imprescindível para disciplinar e controlar as inundações da bacia, que traziam inúmeros prejuízos para as regiões afetadas pelas cheias. O esforço maior na condução e elaboração deste plano foi em transformá-lo não só em um sistema de fácil aplicação, permitindo que este fosse usado como instrumento regulador, referencial técnico e estratégico para condicionar as intervenções neste segmento em diferentes municípios.

Para falar um pouco mais sobre o plano, Aluísio Pardo Canholi, engenheiro civil, diretor da Hidrostudio Engenharia e autor do livro Drenagem Urbana e Controle de Enchentes, concedeu uma entrevista com detalhes do planejamento, medidas similares ao redor do mundo e os resultados que geraram. Confira!

O senhor menciona em seu livro Drenagem Urbana e Controle de Enchentes que a crescente urbanização faz com que a alocação de espaços para destinação das águas da chuva se torne um problema muitas vezes agravado pela prática de canalizações que aceleram o escoamento de rios e córregos. Como isso modifica o comportamento das enchentes?

A canalização de um rio ou córrego promove o aumento das velocidades do escoamento, quer pela retificação, que reduz o seu comprimento aumentando, portanto a sua declividade, quer pelo revestimento de suas margens, que se tornam mais regulares e lisas. Esta aceleração do fluxo promove a redução dos tempos de concentração. Isto significa que a chegada dos escoamentos provenientes das várias partes de uma bacia hidrográfica, a um determinado ponto, ocorre em intervalos de tempo mais curtos, reduzindo as defasagens entre eles, provocando maior “concentração” dos mesmos, e, portanto o aumento os picos de vazão. Some-se a isto a perda das áreas de várzea, o que impede o espraiamento do rio quando da ocorrência das cheias.

Este problema afetou o Alto Tietê, conforme mencionado em sua obra. O senhor pode falar mais sobre este caso?

Na bacia hidrográfica do Alto Tietê, que abrange praticamente toda a Região Metropolitana de São Paulo, a intensa e rápida urbanização exigiu a ampliação do sistema viário, o qual foi estruturado principalmente em vias de fundo de vale. Estas vias foram implantadas junto às margens dos rios, também chamadas de vias marginais, ou mesmo por sobre os seus leitos. São notórios os exemplos como as Marginais do Tietê e Tamanduateí (Avenida do Estado), avenidas Pacaembu, 9 de Julho, 23 de Maio, Juscelino Kubistchek, dos Bandeirantes e muitas outras. Este partido de projeto levou à canalização e retificação radical destes rios, à supressão de suas várzeas, e muitas vezes pior ainda, ao completo tamponamento dos mesmos, o que acrescenta ao problema da amplificação dos picos, a maior dificuldade de limpeza e à perda da referência hidrográfica.

Segundo o livro, as recomendações do Plano Diretor de Macrodrenagem tinham o intuito de uniformizar procedimentos de análise hidráulica e hidrológica e possibilitar melhor fiscalização dos órgãos públicos. Como se deu o planejamento para atingir estes objetivos?

O que está recomendado diz respeito ao estabelecimento de metodologia e parâmetros visando a uniformização dos procedimentos quanto a análise de projetos de drenagem urbana. Isto porque, ainda atualmente, porém em menor escala, havia uma multiplicidade de critérios tanto hidráulicos como hidrológicos adotados na elaboração de termos de referência e mesmo na fiscalização de projetos de drenagem. O próprio conceito de bacia hidrográfica como unidade de planejamento, e não as divisas administrativas municipais, representou um grande avanço no trato dessas questões principalmente na Região Metropolitana de São Paulo, com 39 municípios. Outro critério importante é que não se corrige um ponto crítico gerando outro mais a jusante, o que era comum anteriormente com a prática de apenas aumentarem-se as galerias e canais nos trechos problemáticos sem uma visão integrada dos impactos gerados na bacia.

O senhor também menciona que foram desenvolvidos diversos planos, mas a evolução da ocupação urbana criou a necessidade de revisões. Qual foi o plano final e quanto tempo demorou até a implantação do projeto definitivo?

Não se pode falar em plano definitivo de drenagem quando a região ainda encontra-se em processo de expansão e desenvolvimento. Da mesma maneira existe uma grande dificuldade, e cada vez maior, de obterem-se áreas, por exemplo, para a implantação de reservatórios (piscinões). Logo, a cada período é necessária uma atualização da situação do sistema, em função de quais obras foram realizadas e com quais dimensões; quais já não se podem mais fazer por interferências instaladas, bem como dos próprios resultados observados. Uma reavaliação dos critérios e parâmetros adotados também é sempre bem-vinda, já que as melhorias e avanços nos sistemas de monitoramento hidrológico e das próprias análises hidráulico-hidrológicas ocorrem sistematicamente.

O PDMAT – Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê, capitaneado pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), iniciou-se em 1998 e encontra-se agora na sua terceira revisão. Por meio deste plano, todas as obras de macrodrenagem na Região Metropolitana de São Paulo devem seguir suas diretrizes e recomendações. Neste período o volume de reservação através dos piscinões atingiu cerca de cinco milhões de metros cúbicos, bem como foi promovido o rebaixamento e ampliação da calha do Tietê. Estima-se que são necessários, no que se refere a reservação, de pelo menos mais 5 milhões de m³, que deverão ser implantados nos próximos 10 anos.

Existem outros casos similares ao da Bacia do Alto Tietê no Brasil e no mundo?

O que caracteriza de maneira definitiva a complexidade da drenagem da bacia do Alto Tietê é o fato de que conforme já referido, além de ser o escoadouro único de uma região com 20 milhões de habitantes, com cerca de 1.500 km² impermeáveis em perto de 5000 km² totais, ela situa-se na nascente do rio. Ou seja, as calhas naturais são muito pequenas, suas vazões de base, na estiagem, são muito baixas atravessando um trecho de planície de baixas declividades, outrora ocupado por várzeas extensas. As vazões de cheia do Tietê em São Paulo chegam a ser 30 vezes maiores que as de estiagem. Por outro lado, o fato de as vias de tráfego mais importantes da região estarem situadas nas margens dos rios, o extravasamento desses rios, mesmo de pequena monta, traz inúmeros problemas principalmente relacionados com a mobilidade urbana da metrópole. A Região Metropolitana do Rio de Janeiro também apresenta inúmeras áreas críticas sujeitas à inundação, porém como os pontos de lançamento são diversos as medidas necessárias e os seus impactos, são geralmente de caráter específico para cada bacia hidrográfica.

O senhor pode contar mais sobre os resultados obtidos a curto e longo prazo?

Diversas bacias sujeitas a inundação frequente em São Paulo tiveram sua situação bastante melhorada após a implantação de obras preconizadas no PDMAT, e voltadas principalmente para a reservação dos excedentes de vazão. Citam-se, por exemplo, as seguintes bacias: Pacaembu; Pirajussara; Cabuçu de Baixo (Avenida Inajar de Souza-Freguesia do Ó); Água Espraiada (Reservatório Jabaquara) e outras.

À medida que o Plano for sendo implantado, todos os benefícios observados serão bastante significativos.

Tudo a ver

A obra Drenagem Urbana e Controle de Enchentes foi desenvolvida por Aluísio Canholi, com base na experiência do autor com a introdução dos reservatórios de detenção urbanos no Brasil, popularmente conhecidos como piscinões. Canholi também participou do Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê, uma das regiões mais problemáticas do mundo em termos de recursos hídricos e, com tudo isso, apontou no livro diversos conceitos de projetos de obras hidráulicas, além de rever o conceito clássico da Engenharia Sanitária e propor novas medidas estruturais não convencionais para a drenagem das grandes cidades.

A obra traz exemplos de projetos bem sucedidos na prevenção de enchentes e visa preencher lacunas técnicas importantes para profissionais e estudantes de engenharia.

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