Entrevista: Tundisi fala sobre preservação de mananciais

Os mananciais são as fontes de água, superficiais ou subterrâneas, que podem ser usadas para o abastecimento público como lagos, represas e lençóis freáticos. Ao reconhecer a importância da preservação destes espaços, muitos órgãos estabeleceram diretrizes e normas para a proteção e a recuperação da qualidade ambiental das bacias hidrográficas dos mananciais de municípios do Brasil.

Entre os principais pontos estabelecidos pelas diretrizes estão a redução da poluição das águas por esgotos e lixos industriais e a preservação das vegetações nos arredores. Segundo a obra Recursos Hídricos no Séc. XXI, escrita por Takako Matsumura Tundisi, diretora e pesquisadora do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos, e José Galizia Tundisi, presidente do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos-SP, estas não são as únicas formas de contaminação das águas, que pode acontecer pela percolação por resíduos de aterros sanitários, percolação a partir de lagoas de estabilização, perdas por derrames, acidentes em tanques de reservas de combustíveis e despejo de esgoto não tratado.

Apesar disto, ações mais efetivas mostram que é possível recuperar as áreas de mananciais. Um dos principais exemplos pode ser visto na Represa Guarapiranga, em São Paulo, que atualmente tem algumas regiões com extensa biodiversidade e nas quais é possível nadar. Confira abaixo uma entrevista com José Galizia Tundisi, doutor em ciências biológicas pela USP e presidente do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos-SP, e compreenda um pouco mais sobre a necessidade da preservação dos mananciais, quais ações já foram realizadas e cases de sucesso neste setor. Confira!

Comunitexto: Quando se começou a falar sobre áreas de manancial?

José Galizia Tundisi: Isso já data de uns 20 anos atrás aproximadamente, quando se começou a pensar de forma mais sistêmica na qualidade da água. Percebeu-se que isso envolveria uma gestão mais integrada de bacias hidrográficas e, evidentemente, nestas bacias hidrográficas você tem os mananciais. Mais recentemente, começou-se a relacionar a qualidade da água dos mananciais com as unidades de tratamento porque, à medida que ocorre uma mudança na qualidade de água do manancial e ela vai ficando mais deteriorada, o sistema de tratamento precisa ser mais sofisticado e este custa caro.

CT: Quais são as principais iniciativas de proteção aos mananciais no Brasil?

José Galizia Tundisi: São várias iniciativas, tanto do poder publico – como reflorestamento de áreas de mananciais e a proteção de áreas de mananciais – quanto do setor privado, que tem avançado bem nessas iniciativas, por exemplo, pagando lavradores para não cultivarem nas áreas de mananciais e com investimentos em reflorestamento. O governo federal também tem projetos de apoio a proteção de mananciais e outros são desenvolvidos em esferas municipais.

CT: Quais são as leis no País que asseguram o cumprimento destas iniciativas?

José Galizia Tundisi: Existem as leis gerais do IBAMA, do Governo Federal e do Ministério do Meio Ambiente, mas cada município tem suas próprias leis e suas próprias ênfases na proteção de mananciais. Por exemplo, no município de São Carlos tem leis de proteção especificas para mananciais. O prefeito pode, segundo as legislações de São Carlos, declarar uma área de proteção ambiental como área de relevante interesse ecológico, “congelando” este local e evitando que seja urbanizado, destruído ou que seja implantado algum aparelho urbano que substitua essas áreas. Isso implica também em proteção dos postos subterrâneos, dos aqüíferos. Em Ribeirão Preto, por exemplo, a prefeita declarou uma área urbana isenta de equipamentos urbanos para preservar a recarga do aqüífero guarani. Portanto, este tipo de abordagem tem sido cada vez mais estimulado.

CT: Existem cases de sucesso neste sentido?

José Galizia Tundisi: Tem sim. Extrema, no Estado de São Paulo, que fica próximo a fronteira de Minas Gerais. Já há alguns anos eles fazem pagamentos por serviços municipais e tem tido uma grande repercussão no trabalho, por terem reflorestado uma área grande. Há também um exemplo bem sucedido em Brotas, ali no Rio Jacaré Pepira, que atravessa a cidade e é importante para o município por servir à prática de rafting. Por conta disso, as águas precisam ser limpas e de boa qualidade. Ele foi totalmente reflorestado, as margens foram reflorestadas e florestas ripárias foram recuperadas.

CT: Como a preservação de mananciais acontece em outros lugares do mundo?

José Galizia Tundisi: Sim, acontecem no mundo todo. Hoje, especificamente na Europa, nos Estados Unidos, no Japão, na Autrália e em outras localidades nas quais é possível recuperar os rios e proteger os mananciais.

CT: Quais os problemas mais comuns ao tentar preservar estes ambientes?

José Galizia Tundisi: Por incrível que pareça, a maior dificuldade é ter pessoas especializadas para realizar estes serviços. Parece fácil, mas precisa de pessoas qualificadas. Precisa inicialmente de um viveiro de mudas robusto e bastante denso e variado para poder reflorestar e proteger os mananciais. E não são todos que sabem fazer isso. Nós usamos em São Carlos uma técnica muito interessante: A EMBRAPA desenvolveu uns tubetes, com nanotecnologia, e eles tem nutrientes dentro de um recipiente. Ao colocar a semente ela vai recebendo os nutrientes adequados até o crescimento. Mas tem muitas tecnologias novas e muita gente para treinar. Por exemplo, faltam muitos catadores de sementes, que coletam as sementes das árvores nativas para melhorar o banco de sementes e expandir a capacidade de reflorestamento. Não temos dificuldades burocráticas ou de financiamento, normalmente os municípios disponibilizam recursos para estas ações ou entidades privadas suprem essa necessidade.

CT: Houve mudanças relevantes desde a criação destas iniciativas?

José Galizia Tundisi: Finalmente se descobriu que quanto mais protegido estiver o manancial, mais economia é feita no município por gastar menos recursos com o tratamento de água. Tem muitos municípios que tem praticamente todo o manancial dentro de florestas e eles gastam pouquíssimo para tratar a água. Eles só usam cloro, mas não colocam coagulantes, desinfetantes, floculantes e outros produtos químicos que produzem água de boa qualidade. E isso é um ganho para o município, às vezes pode os custos do tratamento podem aumentar em até 50 vezes se o manancial estiver contaminado. Por exemplo: Em algumas regiões que medi, o município gasta R$ 2,00 por m³ para tratar uma água de boa qualidade. Já em outros gastam R$ 300,00 por m³. Isso é algo que está começando a ficar mais claro para as autoridades que lidam com tratamento e distribuição de água.

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Gostou da matéria? Então adquira os livros Limnologia e Recursos Hídricos no Século XXI, de José Galizia Tundisi, doutor em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo e presidente do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos-SP, e Takako Matsumura Tundisi, professora titular aposentada da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e diretora e pesquisadora do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos. Na obra Limnologia, está presente todo o conhecimento científico acumulado sobre as águas, desde o uso dela como substrato até a origem dos lagos, a diversidade e a distribuição geográfico destes ambientes aquáticos.

Já no livro Recursos Hídricos no Século XXI, estão explicados todos os aspectos dos recursos hídricos no Brasil e no mundo, seus usos múltiplos, os principais desafios enfrentados e os mais recentes desenvolvimentos científicos e tecnológicos na área. A obra também discute soluções e alternativas de gestão, com exemplos reais e inovadores implantados em diversos países e mostra que cada vez é mais importante descentralizar e integrar a gestão, estabelecer novas políticas públicas e desenvolver cursos e programas de capacitação.

 

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