Minerais: dos garimpos para as coleções

Segundo documentário radiofônico do portal da câmara dos deputados (clique aqui para escutar), a atividade garimpeira existe oficialmente desde o início do século XVII, e embora seja uma atividade com presença majoritariamente masculina, mulheres e crianças começaram a marcar presença nestes espaços em atividades de revolvimento de rejeitos deixados pela atividade dos homens, buscando material de qualidade inferior ou eventualmente alguma coisa de valor maior que possam ter deixado escapar.

Outras pessoas também têm atuado nos garimpos recentemente, mas sem o intuito de obtenção de renda: os colecionadores de minerais. Segundo Pércio de Moraes Branco, em artigo publicado no em seu blog (clique aqui para acessar), minerais que se destacam pela beleza ou pela raridade são muitas vezes desprezados por não corresponderem ao que está sendo buscado por estes trabalhadores.

Para contar um pouco mais sobre esta experiência nos garimpos e sobre coleção de minerais, convidamos Pércio de Moraes Branco, geólogo, especialista em Economia Mineral e professor e consultor de Gemologia, para uma entrevista. Confira!

Comunitexto: Segundo esta entrevista (aqui), o senhor começou a colecionar minerais no início da graduação.  Quantos exemplares o senhor possui atualmente? Tem uma estimativa de quantos já foram doados para museus?

Pércio de Moraes Branco: Minha coleção atual tem entre 900 e 1.000 peças.

Não sei quantas peças foram por mim doadas a museus. Quando fui convidado a organizar o Museu de Geologia da CPRM, doei muitos minerais para o acervo inicial, escolhidos entre as duplicatas que eu tinha na minha coleção. Como todas as etiquetas e identificação informam o nome de quem doou, sempre havia algum visitante que pensava que o acervo era meu.

Depois de inaugurado o Museu de Geologia, continuei ampliando seu acervo com material que eu coletava em trabalhos de campo. Eu trazia peças para o Museu, para a minha coleção e para doar a escolas e colecionadores.

CT: O senhor menciona, na mesma entrevista, que a vanadinita é a pedra mais bela da sua coleção. Mas qual foi o mineral mais difícil de conseguir?

PMB: Foram dois. Um foi o dioptásio, mineral que forma cristais belíssimos, mas dificilmente encontrados no Brasil. Eu desejava muito ter esse mineral na minha coleção e consegui finalmente através de troca feita com um colecionador estrangeiro.  Essa peça pertence hoje ao Museu de Ciências Naturais da Universidade Luterana do Brasil.

O dioptásio foi muito desejado, mas, na verdade, pouco procurado. Tenho, porém, uma peça que, ela sim, foi muito procurada. Eu queria muito ter um quartzo com inclusão de dendrito. Na década de 1970, quando eu morava no Rio de Janeiro, não era difícil encontrar isso no comércio de gemas e minerais para coleção de Copacabana, mas eu nunca via uma peça com a qualidade que desejava. Depois de uns dois anos de procura, finalmente encontrei um quartzo com dendritos que merecia estar na minha coleção (foto abaixo). 

Quartzo

CT: Recentemente, o senhor fez um post no seu blog (este aqui) sobre alguns minerais exóticos obtidos em garimpos. Conte-nos mais sobre sua experiência em garimpos (como descobriu os mais interessantes, como funciona para quem deseja fazer o mesmo, etc.)

PMB: Quando chefiei o Projeto Pedras Preciosas RS/SC, na década de 1990, visitei praticamente todos os garimpos de pedras preciosas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Descobri, nesse trabalho, que o rejeito dos garimpos continha muitas peças bonitas que os garimpeiros abandonavam por não se tratar de ametista ou ágata, as gemas que eles procuravam, ou por serem essas gemas, mas com má qualidade. Esse material desprezado contém arranjos de minerais exóticos; cristais de quartzo incolor (cristal de rocha) ou de ametista com inclusões de outros minerais, como goethita; cristais de ametista recobertos por cristais de calcita; opala; cornalina; etc.

Esse material todo era jogado fora. Hoje, os garimpeiros estão mais informados e sabem que aquilo que antes desprezavam pode ter valor como mineral para coleções. Mas, ainda se podem obter peças interessantes em garimpos de ágata e de ametista do Rio Grande do Sul.

Nos garimpos de gemas abertos em pegmatitos, a variedade de minerais encontrados nos rejeitos é maior e o tamanho dos cristais também é maior.

Os garimpeiros do Rio Grande do Sul permitem que se colete livremente material nos rejeitos, principalmente na região do Médio Alto Uruguai (norte do Estado). Em garimpos de outros estados, é bom conversar antes para saber se isso é permitido. Em Ouro Preto (MG), eu sei que há um garimpo de topázio onde é livre o acesso.

CT: Existe algum caso curioso ou interessante que queira compartilhar com os leitores?

PMB: Certa vez, visitei, com alunos e professores de Gemologia da UFRGS, um garimpo de ametista do Rio Grande do Sul que produzia também cristais de selenita, uma variedade incolor e muitas vezes bem límpida de gipsita. No galpão em que os garimpeiros costumam guardar ferramentas, alimentos e outros objetos relacionados com seu trabalho, havia vários pedaços pequenos de selenita, com até uns 10 cm de comprimento. Eram peças de pouco valor comercial que o garimpeiro, generoso, autorizou os estudantes a pegar.

Cada um então pegou um cristal de selenita para si. Eu não me interessei porque os cristais eram realmente pouco interessantes. Mas, havia entre eles um cristal bem maior, de 17x10x5 cm, que ninguém ousou pegar, porque era claramente muito mais valioso que os demais. Eu, é claro, também não peguei, mas perguntei ao garimpeiro por quanto ele a venderia. Para minha surpresa, ele disse que eu podia levá-la. Era presente também.

CT: O senhor menciona no mesmo post que um dos maiores desafios é encontrar garimpeiros dispostos a guardar minerais sem valor comercial, mas que isso está mudando. Quando começou a existir essa preocupação com peças que tem valor para pesquisadores e colecionadores?

PMB: Não sei exatamente quando isso aconteceu, mas acredito que tenha sido uma mudança de mentalidade que surgiu aos poucos. A observação do interesse de estudantes universitários e de turistas mostrou a garimpeiros e comerciantes de minerais que aquele material que jogavam fora também tinha valor. Geólogos e professores de Geologia que visitavam os garimpos também chamavam a atenção dos garimpeiros para isso, contribuindo para essa mudança.

CT: Quais dicas o senhor tem a oferecer para quem deseja realizar estas experiências em garimpos?

PMB: A primeira e mais importante é obter a permissão dos garimpeiros, deixando claro o que se deseja. Os garimpeiros de ametista do Rio Grande do Sul são muito acessíveis, mas os de ágata da região de Salto do Jacuí não tanto. O visitante deve dizer quem é, o que faz, por que está ali e o que deseja. Obtida a autorização, manusear o material dos rejeitos com cuidado, de preferência usando luva de couro. É fácil cortar as mãos, principalmente se o material estiver molhado.

O rejeito dos garimpos de ametista é jogado morro abaixo e deve-se pisar no material com muito cuidado, pois o risco de ele ceder é sempre bastante grande.

Recomendo levar jornal para embrulhar o material coletado, pois há peças muito delicadas que devem ser protegidas no transporte.

CT: Para finalizar, quais museus no Brasil o senhor indica que possuam acervos interessantes de minerais?

PMB: Estou começando um levantamento dos museus brasileiros com acervos de minerais, que pretendo terminar nos próximos meses. Alguns deles são bem conhecidos e merecem ser visitados.

O Museu de Ciência e Técnica, da Universidade Federal de Ouro Preto, sem dúvida está entre os mais importantes, e provavelmente é o mais importante de todos. Tem 23.000 peças, procedentes de todo o mundo.

O Museu do Instituto de Geociências da USP tem um acervo bem interessante, de quase 50.000 peças, das quais 10% em exposição permanente.

O Museu Nacional, no Rio de Janeiro, criado em 1818, tem rico acervo de minerais, inclusive a coleção que pertenceu a José Bonifácio de Andrada e Silva (que foi um grande mineralogista). Ele não está acessível ao público, mas, lá se pode ver o maior meteorito encontrado no Brasil, o Bendengó, com 5.360 kg.

O Museu de Ciências da Terra, também no Rio de Janeiro, pertencente ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), possui dezenas de milhares de peças, algumas de valor histórico, e foi organizado em 1907. Ao contrário do Museu Nacional, tem seu acervo de minerais aberto à visitação.

Em Porto Alegre (RS), a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais mantém o Museu de Geologia, com um acervo que não é grande, mas em que se destaca uma rica coleção de gemas brutas (100 tipos) e lapidadas (62 tipos).

Tudo a ver

Dicionário de Mineralogia e Gemologia, escrita por Pércio de Moraes Branco, geólogo e especialista em economia mineral, tem mais de 8.600 verbetes e contém detalhes sobre todas as espécies minerais reconhecidas pela International Mineralogical Association, grupos, variedades, espécies duvidosas, nomes comerciais e populares, além de mais de cem fotografias coloridas.

A obra também tem destaque especial para a Gemologia, com um espaço dedicado aos tipos de lapidação, produtores, história e ao valor comercial do quilate de gemas lapidadas. Esse panorama completa-se com as gemas orgânicas (pérola, marfim, coral etc.).

Comentários

  1. Eu tenho um dioptásio pesado mas ou menos um 4 quilos pedra lindissima

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