Geologia – Entrevista com Paulo M. Barbosa Landim

Antigamente, nas pesquisas geológicas, utilizava-se de simples materiais, como bússola e trena para fazer medições e simples análises químicas, em campo, para se descobrir especificidades da área analisada. Hoje em dia, com o avanço tecnológico, são realizadas as mais diversas análises químicas em laboratório e, para as medições de campo, os satélites artificiais e equipamentos como GPS ajudam o geólogo, e muito, na descoberta de dados mais complexos.

Com a tecnologia avançou-se, em muito, o número de dados coletados, porém, as pesquisas ainda estão aquém diante de tantos dados. É nesse contexto que se enquadra a obra Análise estatística de dados geológicos multivariados do Prof. Paulo M. Barbosa Landim. Paulo Landim

Acompanhe abaixo a entrevista com o professor Paulo M. Barbosa Landim a respeito da situação atual e das expectativas da área:

Comunitexto: Professor Landim, de onde surgiu o interesse em estudar os dados estatísticos obtidos de pesquisas geológicas?

Paulo M. Barbosa Landim: Em 1967-1968, após o meu doutorado na USP, estive como Visiting Scholar no Departamento de Geologia da Northwestern University (EUA). Nessa ocasião, graças ao contato que mantive com o Professor W. C. Krumbein, é que comecei a entender a importância da aplicação dessa metodologia em dados geológicos.

C: No Brasil, atualmente, há uma grande demanda para profissionais desse ramo da Geologia? A partir de quando isso ocorreu?

PMBL: Tenho que reconhecer que a demanda não é muito grande, mas vem melhorando, principalmente entre os profissionais mais jovens. Há vários anos ministro um curso em nível de pós-graduação sobre o assunto, e noto um interesse cada vez maior por parte não apenas dos geólogos, mas também de geógrafos, ecólogos, biólogos e agrônomos.

A Geologia há bem pouco tempo, era frequentemente considerada uma ciência baseada em interpretações puramente qualitativas dos fenômenos geológicos. Nos últimos anos, porém, tem sido notável a mudança da fase descritiva para a utilização de métodos quantitativos, principalmente nas diversas áreas da Geologia Aplicada. Na área mineral, com destaque para a do petróleo, onde a interpretação geológica – além de estar fundamentada em conceitos científicos – precisa ter aplicação econômica, observa-se uma marcante tendência quantitativa que vem possibilitando avanços importantes principalmente no uso de técnicas espaciais.

C: E quanto à fabricação de equipamentos? O Brasil precisa importar muito material ou nós já produzimos o suficiente para suprir as necessidades da área?

PMBL: Entre equipamentos e pessoal capacitado para manuseá-los, prefiro me fixar no profissional. A atuação do geólogo formado no Brasil se equipara perfeitamente com o desempenho de colegas de outros países de grande tradição em estudos geológicos como, entre outros, Estados Unidos da América, Canadá e Austrália. Exemplos marcantes podem ser citados com referência ao que vem sendo executado na Geologia de Engenharia, na Geologia de Petróleo, na Mineração, etc.

C: O que representa a inserção da análise estatística de dados multivariados nos estudos geológicos? Quais foram os ganhos?

PMBL: Nas últimas décadas, graças a avanços tecnológicos tanto em termos computacionais como em equipamentos de laboratório e de campo mais refinados, tem sido intensa a obtenção de dados geológicos quantitativos. A sua análise, porém, esta muito aquém desta imensa quantidade de informações coletadas. Basta ver os relatórios de pesquisa e mesmo os bancos de dados com um grande número de matrizes de informações não trabalhadas.  Verbas e tempo são gastos com essa coleta que precisa ser devidamente manuseada, e para essa análise dos dados o emprego de técnicas estatísticas multidimensionais torna-se uma ferramenta fundamental. Isto porque, como os fenômenos geológicos são resultantes de diversos fatores condicionantes, o seu entendimento é facilitado quando o estudo é submetido a um tratamento quantitativo multidimensional.

C: Qual destas etapas é a mais complicada: a coleta de dados em campo ou  a análise estatística desses dados? Por quê?

PMBL: São situações diferentes, mas a coleta de dados no campo é a etapa mais importante. Dados coletados de maneira imprópria não resultarão em respostas esclarecedoras, por mais sofisticado e preciso o método de análise quantitativa empregado. Um bom modelo sempre deverá ser baseado em dados confiáveis.

C: Por que é essencial a análise dos dados coletados em laboratório? O que é feito com os resultados?

PMBL: A análise de dados conduz à formulação de modelos que tentam explicar a natureza dos fenômenos geológicos. A pura utilização de técnicas estatísticas multivariadas é hoje em dia bastante facilitada graças à vasta disposição de programas computacionais, o que não é condição suficiente se o estudo não for embasado num sólido conhecimento geológico. É necessário, inclusive, o pesquisador ter sempre em mente que os resultados, obtidos por via quantitativa, devem ter uma explicação lógica e coerente dentro do contexto das geociências. Em outras palavras, não procurar encaixar a natureza em seu modelo multivariado, por mais perfeito que ele possa parecer. Um modelo é sempre uma simplificação da natureza.

C: Para encerrar, quais são as expectativas para a área de análise estatística de dados multivariados?

PMBL: Sou bastante otimista a respeito. Caso contrario, não teria me disposto a escrever um livro, mesmo de caráter introdutório, mostrando as possibilidades de aplicação de diversas técnicas estatísticas multivariadas à dados geológicos. Espero que este meu sentimento possa ser entendido e compartilhado com os leitores.

Em Análise Estatística de Dados Geológicos Multivariados Paulo M. Barbosa Landim apresenta uma introdução aos métodos estatísticos multidimensionais aplicados na análise de dados geológicos.

Escrito a partir de sua vasta experiência como professor, a obra tem uma linguagem simples, sem complexas abordagens matemáticas – presumindo-se um conhecimento básico de estatística descritiva e conceitos simples de álgebra matricial –, sendo um agregador importante principalmente para acadêmicos e iniciantes na área.

4 Comentários

  1. Caro Professor Landim
    Parabéns pela brilhante entrevista.
    Estou participando de uma banca de qualificação de doutorado e em meus comentários utilizarei uma citação retirada de uma das suas respostas, quando associa qualidade da coleta de dados com a confiabilidade dos resultados obtidos pelo modelamento.
    Um grande abraço
    Sergio Guerra
    smsguerra@hotmail.com

  2. Caro Landim,

    Parabéns pela esclarecedora entrevista. Vamos ver se mais esta obra, meus companheiros geólogos utilizam mais as diversas ferramentas existentes de análise estatística existente nos siftaware de SIG e outros específicos para as áreas de geofísica, geoquímica e sensoriamento remoto. Antigamente não existiam muitos, no Brasil o GEOQUANT e outros programas desenvolvidos no USGS e universidades no exterior.

    Um abraço,

    Paulo Branco

  3. Caro Professor Landim

    Parabenizo-o pela importante publicação.

    Forte abraço.

    Marsis cabral Jr.

  4. Uma das maiores honras de minha vida foi ter frequentado as aulas dos professor Landim e tê-lo como membro da banca examinadora de meu mestrado.

    É um homem visionário e de princípios.

    Um grande abraço.

Deixe sua opinião!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *