Igo Lepsch fala sobre morfologia do solo

Em muitos casos, para reconhecer e interpretar as características e o comportamento de um solo, não é necessário realizar inúmeras análises químicas e físicas. Grande parte dos atributos do solo pode ser avaliada em estudos de campo com o uso da visão e do tato. Estas características visíveis do solo, possíveis de serem avaliadas com os sentidos, são conhecidas como morfologia do solo.

Para contar um pouco mais sobre o início dos estudos morfológicos, como esta ciência se desenvolveu, e apontar algumas características do solo, convidamos o professor Igo F. Lepsch, renomado especialista em Solos, com mais de 40 anos de experiência nesta área e doutorado pela North Caroline State University, EUA, para uma entrevista exclusiva. Confira!

Comunitexto: No seu livro 19 Lições de Pedologia é mencionado que somente depois do solo ser compreendido como um corpo natural e dinâmico que passaram a existir estudos morfológicos. Quando isso ocorreu?

Igo Lepsch: Ocorreu por volta de 1880, com a escola do naturalista russo Vasilii V. Dokuchaev, que começou a estudar os solos no campo e observou que ele variava, principalmente, de acordo com as diversas zonas climáticas (polar ártica, temperada do norte, etc.). Ele foi também um dos primeiros a verificar que a morfologia (ou “anatomia”) dos solos dessas diversas zonas poderia ser descrita em uma sucessão de camadas, quase horizontais, as quais ele denominou “horizontes”. Em sua tese intitulada “Os Chernozems da Russia”, defendida em 1883, ele chegou a afirmar:

“O solo é um corpo natural e individualizado tal como uma planta, animal ou mineral”

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O naturalista Vasily V. Dokuchaev e a capa de sua tese, defendida em 1883. Foto cedida por: Bol. Inf. Sociedade Internacional de Ciência do Solo vol. 64, No. 2, 1992

Antes de Dokuchaev, destacou-se a escola do químico alemão Justus Von Liebig que preconizava a chamada “lei do mínimo” e imaginava o solo como um material inerte, fruto de decomposição das rochas. Essa lei costuma ser ilustrada com um barril cheio d’água (figura abaixo).

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Uma das mais comuns ilustrações da”lei do mínimo” desenvolvida pela escola de Liebig

Fazendo uma analogia entre corpos de solo e corpos d ‘água, podemos dizer que, segundo os seguidores de Liebig, para estudarmos um lago bastava tirar dele um barril de água para ser analisada em laboratório. Por outro lado, para os seguidores de Dokuchaev, além de estudar amostras de água no laboratório, seria necessário conhecer bem o lago, com um trabalho de campo detalhado, a fim de verificar sua forma, profundidade, os organismos que dele fazem seu habitat, etc.

Contudo, as descobertas de Dokuchaev demoraram muito para serem divulgadas, uma vez que ele escrevia um idioma e alfabeto pouco conhecidos dos demais europeus. Daí o fato de os sistemas de classificação de solos estarem bem menos desenvolvidos que o das classificações das plantas e animais.

CT: Quais foram as principais mudanças que esses estudos morfológicos trouxeram para diferentes áreas que necessitam dos conhecimentos da ciência do solo?

IL: Considerando o solo como um corpo distinto (formado pela ação conjunta do clima, organismos, material de origem, tempo e condicionado pelo relevo) e que, no campo, podia ser mapeado e seu perfil “dissecado” em horizontes, Dokuchaev e seus seguidores fundaram um novo ramo da ciência: a Pedologia.

A Pedologia destaca-se como um refúgio do estudo do solo dentro do seu conceito total básico e essencial. Tais estudos são úteis não somente para a agricultura, mas para muitas outras áreas, uma vez que engenheiros civis, ambientalistas, médicos e muitos outros profissionais podem utilizar vários de seus princípios científicos para melhor desenvolver suas atividades acadêmicas ou profissionais.

CT: Muitos atributos do solo podem ser descobertos apenas com visão e tato. O senhor pode dar exemplos sobre como as cores e as texturas fazem diferença na compreensão morfológica dos solos?

IL: Com o sentido da visão podemos observar uma paisagem identificando os corpos de solos que, inclusive, podem ser delineados em mapas (p. ex.: sopé de uma encosta, várzea de um rio). Depois do corpo do solo ter sido identificado, como não podemos estudá-lo “por inteiro”, procuramos um local em que exista pedon representativo (em uma área de 1 a 10 m2) no qual os diversos horizontes do perfil do solo possam ser amostrados e sua morfologia, descrita.

Para descrever essa morfologia usamos principalmente o sentido da visão e tato: com a visão distinguimos as diversas cores dos horizontes, quantidade de raízes, de poros e a forma e o tamanho dos agregados que compõem a estrutura do solo. Com o tato, manipulando entre os dedos uma pequena porção umedecida de um horizonte do solo, podemos verificar se ela é mais áspera ou macia, e assim estimar se é mais arenosa ou argilosa (textura), se é mais ou menos plástica e pegajosa, ou se um torrão seco é  mais ou menos duro (consistência).

Desse modo, o pedólogo pode caracterizar o perfil do solo à semelhança do que faz um botânico quando examina forma, tamanho e cor da raiz, caule, folhas e frutos de uma planta.

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Ilustração do corpo do solo, pedon, perfil e seus horizontes (Foto: I. F. Lepsch). Fonte: adaptado de Shroeder (1984)

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Perfil do solo da imagem acima, apresentado em cores

CT: Como obter precisão na descrição e coleta dos horizontes dos pedons dos corpos de solos?

IL: Nas palavras de Ruellan e Dosso (1993), “O solo não é facilmente visível: para podermos realmente vê-lo e estudá-lo, é indispensável conhecê-lo por inteiro”.

Portanto, primeiro é necessário que o pedólogo de campo tenha tido um bom treinamento em morfologia da paisagem e do perfil solo (tal como um botânico que vai estudar uma formação vegetal e depois dissecar uma planta tem que ter bom conhecimento de ecologia e anatomia vegetal). Em outras palavras, só podemos enxergar e apalpar bem se conhecemos bem o que estamos olhando e manipulando.  Em segundo lugar, a descrição morfológica tem que seguir uma nomenclatura padronizada e que seja mundialmente reconhecida. Para isso existem os “Manuais de descrição do solo no campo” que preconizam uma nomenclatura baseada no “Soil Survey Manual”, editado pelo “National Resource Conservation Service” do Departamento de Agricultura dos EUA (NRCS/USDA).

Tais manuais podem ser encontrados na internet. Por exemplo, os editados no Brasil.

Manual Técnico de Pedologia do IBGE:

ftp://geoftp.ibge.gov.br/documentos/recursos_naturais/manuais_tecnicos/manual_tecnico_pedologia.pdf

E os editados nos EUA (“Field book for describing and sampling soils”):

http://soils.usda.gov/technical/fieldbook/

CT: Já houve algum caso em que foi muito difícil determinar a morfologia de um solo ou um caso em que os resultados das análises surpreenderam?

IL: Sim. Conheço um colega que trabalha com solos de mangue. Tais solos estão sempre encharcados com água do mar, sendo, portanto, quase impossível nele escavar uma trincheira para examinar adequadamente os seus horizontes. Ele tem que usar uma sonda especial para – ao contrário do que fazemos em outros solos – primeiro amostrar o solo e, só depois, descrever sua morfologia.

CT: Qual a diferença entre objeto, imagem e conceito taxonômico do solo?

IL: Para entendermos melhor essas diferenças é necessário considerar que na pedologia não existem realmente indivíduos solos estritamente independentes e separados uns dos outros. Este conceito de indivíduos é restrito às ciências tal como na botânica (uma planta) ou zoologia (um animal). Na natureza, os corpos de solo formam uma espécie de continuum, ainda que as variações em seus atributos possam ser suficientemente claras para serem representadas por meio de delineamentos no mapa. Por isso devemos distinguir:

– o objeto solo: uma realidade natural correspondente ao continuum (por exemplo, o corpo de solo que um delineamento representa em um mapa pedológico detalhado).

– a imagem solo – que é o solo tal como o representamos para nós mesmos depois de termos observado sua morfologia. Somente as principais feições são retidas, tal como em uma fotografia, onde podemos ver somente as feições externas mais visíveis (p. ex: a descrição – anotada em um caderno – e a foto de um perfil de solo).

– o conceito de solo – que não tem existência real, pois é um indivíduo teórico ou táxon de uma classificação que mais se aproxima de nossa imagem do solo (p. ex.: Latossolo Vermelho Distrófico – um subgrupo do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos).

Por exemplo: no campo nós olhamos a superfície e um perfil do solo (objeto); em seguida, o descrevemos em nossa caderneta (imagem) e, depois, o classificamos como um Latossolo Vermelho Distrófico (conceito).

Segundo Legros (2006), muitas são as vantagens em considerar os solos como objetos (ou indivíduos) distintos. Isso nos permite organizar nosso conhecimento acerca deles na forma de classificações e possibilita desenhar mapas nos quais seus limites são identificados. Tais mapas são acompanhados de um memorial que descreve as propriedades morfológicas, físicas e químicas dos horizontes dos diversos solos e apresenta interpretações deles para fins práticos (agricultura, engenharia civil, etc.)

CT: No Grupo de Discussão do Google (clique aqui para acessar) o Sr afirmou também que a tarefa de mapear solos envolve tanto arte e uma ciência; poderia explicar melhor essa sua afirmação?

IL: Permita-me parafrasear Brady e Weil (2010):

“Elaborar um levantamento de solos é, ao mesmo tempo, uma ciência e uma arte. Com ele, muitos pedólogos transferem seu conhecimento sobre os solos e as paisagens para o mundo real. Mapear os solos não é apenas uma profissão; muitos diriam que é um estilo de vida. Trabalhando sozinho, ao ar livre, em todos os tipos de terreno, e carregando todo o equipamento necessário, o pedólogo identifica as “verdades do campo” para serem integradas com os dados de satélites e de laboratórios. Os mapas de solos, e as informações descritivas que resultam nos relatórios dos levantamentos pedológicos e nos bancos de dados, são usados de várias formas práticas tanto por pedólogos como por não pedólogos. O levantamento de solos, combinado com poderosos Sistemas de Informação Geográfica, permite que os planejadores do uso da terra tomem importantes decisões  sobre “onde as coisas devem ficar”. O desafio dos estudiosos do solo, e dos cidadãos preocupados em desenvolver ideias e atitudes que possibilitem o melhor uso dos nossos valiosos solos, é preservá-los – sem permitir que sejam destruídos com a construção de aterros e “shopping centers”.

Mais uma frase desses autores e uma foto do meu livro “19 Lições de Pedologia”:

Hoje nós reconhecemos a existência dessas entidades individuais, cada uma das quais chamadas de um solo. Da mesma forma que os seres humanos diferem uns dos outros, os indivíduos solo diferem entre si. As gradações encontradas nas suas propriedades, quando passamos de um indivíduo do solo para outro, que lhe é adjacente, podem ser comparadas à gradação em comprimentos de ondas de luz quando sua vista capta uma cor do arco-íris e, em seguida, se move para outra. A mudança é gradual e, ainda assim, identificamos um limite diferenciado: aquilo a que chamamos de verde e o que chamamos de azul “

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Arco‑íris nas montanhas de Teresópolis, RJ (Foto: Mendel Rabinovitch)

CT: O senhor mencionou neste mesmo grupo do Google (clique aqui para acessar), que o conceito de polipedons está sendo considerado obsoleto. Por quais motivos?

IL: O conceito está sendo considerado obsoleto, mas acredito que somente nos EUA, e isto em razão de, nesse pais, uma “série de solo” ser considerada tanto como uma unidade de mapeamento como uma unidade taxonômica. Para entendermos melhor e, considerando que no Brasil os conceitos de pédon, polipedon e série de solo ainda não estão bem definidos, transcrevo abaixo uma parte, traduzida, do livro-texto de Brady e Weil (2010):

“No campo, os solos são heterogêneos, ou seja, as características do perfil não são exatamente as mesmas em quaisquer dos dois pontos dentro do indivíduo solo que você escolheu para examinar. Por isso, será necessário caracterizar um indivíduo solo como uma unidade tridimensional imaginária chamada de pedon (do grego pedon, chão). Ele é a menor unidade de amostragem, aquela que apresenta toda a gama de propriedades de um determinado solo. Os pedons ocupam cerca de 1 a 10 m2 de área de terra. Por ser o material que realmente é examinado durante a descrição de um solo no campo, ele serve como a unidade básica de classificação desse solo. No entanto, uma unidade de solo, em uma determinada paisagem, geralmente consiste em um grupo de pedons muito semelhantes e intimamente associados. O conjunto de pedons similares (ou um polipedon), com tamanho suficiente para ser reconhecido como um componente da paisagem, é denominado indivíduo solo. Todos os indivíduos solo do mundo, que têm em comum um conjunto de propriedades do perfil e horizontes que se enquadram dentro de um limite específico, pertencem a uma mesma série de solo. Portanto, uma série de solo é uma classe de solos, e não um indivíduo do solo; da mesma forma que Pinus sylvestrus é uma espécie de árvore, e não uma árvore em particular”.

Já o Soil Survey Staff (1999) define polipedon da seguinte forma:

Dois ou mais pedons contíguos, todos estando dentro dos limites definidos de uma única série de solo”.

Como, nos delineamentos dos mapas detalhados de solos dos EUA, quase sempre a maioria dos pedons não se enquadra estritamente dentro dos limites preconizados para as respectivas unidades taxonômicas, muitos são de opinião que o conceito de polipedon deva ser abolido.

Creio que a classificação pedológica “não combina bem” com o mapeamento dos solos. No Brasil, depois que delineamos em um mapa um determinado tipo de solo, “teimamos” em “batizá-lo” com o nome de uma classe do Sistema de Brasileiro de Classificação de Solos. Em minha opinião, isso causa muitas confusões porque as unidades de mapeamento de solos são objetos reais, enquanto as classes são conceitos abstratos. Imagine se os botânicos, quando mapeassem as formações vegetais, dessem nome às suas unidades de mapeamento com base nos táxons (p. ex.: Pinus Sylvestrus silvarum, em vez de “floresta de pinho de Riga”). Pynus silvestrus, além de ser um nome de difícil memorização, é específico para uma espécie vegetal – no entanto, as suas florestas não são compostas só por esta espécie.

O assunto é um tanto complexo. Por isso, aos que se interessarem mais sobre isso aconselho a leitura do artigo de Ditzler (2005).

Referências:

BradyN.C. and R.R. Weil.  Elements of the Nature and Properties of Soils 3rd Edition. Prentice Hall, Upper Saddle River, NJ. 2010

Legros, J. P   Mapping of the Soil. Science Publishers. N. Jersey.  2006 .

Ditzler, C. A. “Has the polypedon’s time come and gone?” HPSSS Newsletter, February 2005, pp. 8–11.

Ruellan A. and Dosso M. 1993. Regards sur Ie Sol. Foucher-AUPELF. 192 p.

Soil Survey Staff   Soil taxonomy: A basic system of soil classification of making and interpreting soil surveys. 2. ed. Washington, USDA-Natural Resources Conservation Service, 1999. 869p. (USDA. Agriculture Handbook, 436) ftp://ftp-fc.sc.egov.usda.gov/NSSC/Soil_Taxonomy/tax.pdf

Tudo a ver

Além de publicar diversos artigos científicos, o pesquisador, professor e especialista, Igo Lepsch produziu duas obras essenciais para quem está se especializando em ciência do solo. O livro Formação e Conservação dos Solos está na segunda edição e aborda a composição dos solos e como seu uso pode ser sustentável, tudo isso com uma linguagem simples e precisa, e inúmeras ilustrações em cores. Já a obra 19 Lições de Pedologia traz textos introdutórios à ciência do solo, especialmente sobre as condições brasileiras. Entre os temas abordados estão as rochas e os minérios que dão origem aos solos, os processos de intemperismo, a biologia, física e química, e a fundamentação e apresentação do Sistema Brasileiro de Classificação dos Solos.

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