Índices ambientais e processos industriais

O Brasil ocupa o oitavo lugar entre os maiores emissores mundiais de gases do efeito estufa, segundo o estudo internacional realizado pelo WRI (World Resourcers Institute). Grande parte destas emissões vem do uso de combustíveis fósseis e poluentes industriais, mas para modificar este quadro, as indústrias do País têm adotado metodologias para avaliar os processos, efluentes e impactos ambientais significativos.

Uma das ferramentas utilizadas para esta avaliação é o índice ambiental, cujo cálculo considera a legislação ambiental e a disponibilidade de recursos naturais e energia do local no qual a indústria se situa.

Para explicar um pouco mais sobre estes índices, Luciano Miguel Moreira dos Santos, doutor em Engenharia Metalúrgica e de Minas pela Universidade Federal de Minas Gerais e professor no Centro Federal de Educação Tecnológica de Ouro Preto, atual Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), concedeu uma entrevista ao Comunitexto contando a aplicação destes indicadores no mundo e as diferenças entre cada um, tema também abordado na obra Avaliação Ambiental de Processos Industriais. Confira!

Comunitexto: Foram desenvolvidos dez índices ambientais com o objetivo de avaliar o desempenho de um processo. Desde que época são aplicados? 

Luciano Miguel M. Santos: Os índices foram desenvolvidos em 2001 e inicialmente aplicados em processos siderúrgicos, embora sejam previstos para serem utilizados em qualquer processo industrial. Porém, anteriormente alguns destes índices estavam em desenvolvimento em vários países e foram sistematizados e agregados a outros no presente livro (Avaliação Ambiental de Processos Industriais).

CT: Estes índices são usados somente no Brasil ou estão presentes em todo o mundo?

LMMS: Os índices ambientais presentes no livro e no software SAAP estão previstos para serem aplicados em qualquer processo industrial, portanto são internacionais. A base de construção de todos são as categorias de impactos ambientais determinadas pelo Painel Intergovernamental de Mudança Climática da Organização das Nações Unidas.

CT: Alguns destes índices estão relacionados diretamente, como aquecimento global e destruição da camada de ozônio. Eles podem ser analisados em conjunto?

LMMS: São fenômenos diferenciados com danos ambientais distintos, portanto analisados separadamente. Porém, vários poluentes influem em ambos. Como exemplo, podemos citar os CFC’s que além de destruírem a camada de ozônio estratosférico também contribuem com o aquecimento global.

CT: O índice de aquecimento global tem o intuito de medir a quantidade de dióxido de carbono que existe na atmosfera terrestre e, em sua obra, o senhor cita que as empresas têm grandes dificuldades para quantificar as emissões. Por que isso ocorre?

LMMS: Quantificar as emissões de dióxido de carbono por meio de medições diretas nas fontes de emissão é complicado devido à carência de equipamentos para medições mais precisas. Utiliza-se neste caso uma medição indireta através da geração de dióxido de carbono gerada durante a combustão dos combustíveis utilizados nos processos industriais. Porém, o software SAAP permite ambas as situações.

CT: Existe também um índice de eutrofização. Essa abundância de algas, normalmente vista em ambientes aquáticos poluídos, é resultado de interferências industriais nestes ambientes ou existem outras causas? Como saber se a quantidade de algas é excessiva ou normal?

LMMS: A eutrofização acontece quando há excesso de nutrientes nas águas, principalmente fósforo e nitrogênio. Estes nutrientes são encontrados normalmente nos esgotos domésticos. Então em um ambiente aquático, deve-se quantificar a emissão dos processos industriais separada dos lançamentos dos esgotos domésticos “in natura” das cidades para uma avaliação mais criteriosa dos efeitos danosos dos lançamentos industriais.

Quanto ao índice de oxidantes fotoquímicos, sabe-se que eles formam radicais livres, também responsáveis por envelhecimento precoce da pele. Estes, derivados dos processos poluidores, também têm impactos nos seres vivos.

Os oxidantes fotoquímicos provocam o envelhecimento celular, portanto não somente da pele. A influência deles atinge todos os seres vivos em maior ou menor escala.

CT: Até o momento o uso destes índices já provocou mudanças nos setores industriais? Cite alguns casos de sucesso, se houver.

LMMS: Os índices ambientais foram desenvolvidos com o objetivo de auxiliar as organizações na implantação das normas da série ISO 14000, especificamente a norma NBR ISO 14001. Esta norma exige que se faça uma avaliação de aspectos e impactos ambientais e que haja uma avaliação constante dos processos industriais para cumprimento de objetivos e metas ambientais traçados junto à política ambiental da empresa. Daí, esta metodologia é um apoio à implementação das normas de gestão ambiental. Não tenho dados reais ou casos de sucesso comprovados para relatar.

Tudo a ver

 A obra Avaliação Ambiental de Processos Industriais, de Luciano Miguel Moreira dos Santos, doutor em Engenharia Metalúrgica e de Minas pela Universidade Federal de Minas Gerais e professor no Centro Federal de Educação Tecnológica de Ouro Preto, atual Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), já está na 4ª Edição e apresenta a atualização das normas ISO e aplicação prática da metodologia de avaliação ambiental por meio do software Sistema de Avaliação Ambiental de Processos (SAAP), que acompanha o livro, e permite calcular o índice de pressão ambiental (IPA) do processo.

Indicado aos profissionais da área ambiental, estudantes de graduação e pós-graduação em Engenharia Ambiental, Meio Ambiente Industrial e Ecologia, o livro explica como calcular os impactos e pressão ambiental de determinados poluentes em um processo industrial, tendo como base a legislação ambiental e o nível de sustentabilidade de consumo de recursos naturais e energia, representados por indicadores ambientais das técnicas Análise do Ciclo de Vida das normas ISO 14000.

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