Os climas no Brasil: continuação

Você sabia que os primeiros estudos climatológicos relacionados ao Brasil foram realizados pelos especialistas da coroa portuguesa? Entre as preocupações destes pesquisadores estavam os problemas de saúde publica relacionados com a temperatura, considerando que o clima no País é muito diferente daqueles presentes na Europa.

Desde então, ocorreram muitos avanços nesta área, especialmente no que se relaciona com a tecnologia. Nesta continuação da entrevista Os Climas do Brasil, Francisco Mendonça, doutor em Clima e Planejamento Urbano, professor titular da Universidade Federal do Paraná (UFPR), pesquisador 1B do CNPq, consultor da CAPES e FAPESP e um dos autores do livro Climatologia: noções básicas e clima do Brasil, fala sobre os estudos em climatologia do País e as perspectivas do setor.

CT: Apesar do crescimento tecnológico, ainda há regiões do País que não foram muito estudadas?

FM: Sim, mesmo considerando todos os avanços registrados nas últimas décadas ainda há regiões do Brasil que carecem de estudo para um melhor conhecimento de suas condições climáticas e meteorológicas. A grande maioria dos estudos e pesquisas sobre os climas do país versa sobre as regiões e áreas de maior interesse econômico do país, destacando-se ai as regiões Sudeste, Sul e Nordeste; as regiões Centro-Oeste e Norte apresentam ainda numero reduzido de estudos, sendo o conhecimento de seus climas um dos desafios das ciências atmosféricas do presente. Não devemos imaginar que não existam estudos sobre as mesmas, o que se destaca são as abordagens em escalas espaciais mais amplas donde a falta de estudos de detalhe. Tanto a agricultura quanto as áreas urbanas, dimensões que se expressam da escala regional para a local e topoclimática, em grande parte do país, demandam maior investimento na elaboração de pesquisas em todos os subcampos das ciências atmosféricas.

CT: Quais são as perspectivas para os estudos do clima no País?

FM: Creio que as perspectivas são as mais promissoras, o que evidencia um contexto de grande desenvolvimento presente e futuro para o estudo da atmosfera e dos climas do Brasil. Alguns temas são efetivamente desafiadores, e seu conhecimento detalhado, rigoroso e aprofundado, propiciará trilhar caminhos mais sólidos e menos degradantes do desenvolvimento do país; estes temas podem ser assim sumarizados:

– A melhoria do conhecimento da atmosfera tropical, fundamentalmente diferenciada da atmosfera da zona temperada, certamente fundará uma nova perspectiva da ciência climatológica;

– O estudo das Mudanças e Variabilidades Climáticas, tanto na escala global quanto nas escalas regional e local, constitui um desafio sem precedentes para os cientistas das ciências atmosféricas do Brasil; o grau de incertezas que paira sobre o conhecimento atual desafia a ciência nacional a avançar em estudos e pesquisas no âmbito brasileiro, em interação com instituições internacionais;

– Uma mudança paradigmática se impõe em face dos riscos, vulnerabilidades e resiliencia da sociedade com relação aos eventos climáticos extremos e desastres naturais de ordem climática; esta mudança advirá do avanço do conhecimento dos fenômenos atmosféricos extremos e permitirá a passagem de uma postura remediadora dos impactos para uma postura preventiva e de precaução à eles;

– O crescente envolvimento do conhecimento climático nas atividades de planejamento urbano, regional e agrícola, além dos setores da saúde e de determinadas atividades econômicas evidencia uma cada vez maior necessidade deste conhecimento na gestão do território.

– Avanços do ponto de vista da modelização climática deverão tornar-se mais evidentes na próxima década, particularmente na perspectiva da elaboração de cenários pretéritos e futuros dos climas das escalas global à regional e local; um reforço da perspectiva matemático-estatística parece retomar lugar nos estudos da climatologia geográfica, todavia os cuidados para que não se retorne ao nepositivismo deve ser motivo de permanente zelo pelos estudiosos.

CT: Qual a maior dificuldade enfrentada hoje para se estudar nosso clima?

FM: Vários fatores concorrem para que ainda haja certa dificuldade em se estudar climatologia no Brasil. O numero de estudiosos e pesquisadores dos climas do país ainda é consideravelmente pequeno e, mesmo com todo o apelo midiático a partir da polêmica mudança climática global, o número de interessados nos estudos climáticos não cresceu tanto assim; creio, todavia, que o numero de interessados tende a crescer e, Oxalá, esta área se desponte mais em nosso país, mas esta situação não é uma particularidade apenas brasileira. Penso também que é preciso um maior investimento em equipamentos, laboratórios e equipes de pesquisa no país, além de uma eficaz democratização dos recursos destinados a financiar a pesquisa em Ciências Atmosféricas no país.

CT: O Brasil está posicionado geograficamente na faixa inter tropical,
uma das áreas com maior recebimento de energia solar do planeta. Quais são os impactos positivos ou negativos que este aspecto tem no País?

FM: Um dos principais efeitos positivos da localização do Brasil na faixa intertropical é a fantástica disponibilidade de radiação solar direta comum nesta faixa do globo terrestre; dela deriva toda uma condição de climas quentes (favorecida também pelas baixas altitudes) e a exuberante biodiversidade da área, uma riqueza sem par no mundo. A esta disponibilidade de energia se associa a umidade oceânica e dos sistemas hídricos, e o bioma Amazônico, resultando numa das mais ricas regiões naturais da Terra; os homens e suas sociedades encontram nesta parte do planeta as melhores condições para os assentamentos humanos e a qualidade de vida, ainda que o processo de colonização e o determinismo geográfico tenham ali registrado um contrassenso absurdo na história da humanidade. A agricultura encontra, por exemplo, em toda a extensão do território nacional condições fortemente favoráveis ao desenvolvimento de uma infinidade de cultivos, fato diretamente favorecido pelas condições climáticas, o que responde por um dos principais fatores da riqueza do Brasil, associado à silvicultura. Com relação aos impactos negativos o que parece se destacar sobremaneira é a repetitiva ocorrência de fenômenos climáticos de caráter extremo; ressalta-se neste particular a gravidade das secas e estiagens, contraditoriamente às enchentes e inundações, ambas fortemente presentes no território brasileiro, que causam consideráveis impactos econômicos e nas populações humanas. A manifestação de tantos perigos e seus respectivos impactos decorre diretamente das formas conflituosas de ocupação dos diferentes espaços no país, resultado direto da absurda concentração de renda e da injustiça social que ainda marcam nossa sociedade. Uma melhoria do conhecimento científico do clima e do seu envolvimento no processo de planejamento e organizado do espaço resultará, sem sombra de dúvidas, na redução dos riscos e dos impactos; para isto será necessário, também, reduzir as mazelas sócio-economico-políticas de nossa sociedade.

Tudo a ver

Climatologia: noções básicas e climas do Brasil, de Inês Moresco Danni-Oliveira e Francisco de Assis Mendonça, é uma obra de referência que reúne conceitos básicos de climatologia e meteorologia, com destaque para os domínios climáticos e sistemas atmosféricos que regem tempo e climas do continente sul-americano e Brasil.

Com um panorama sobre o clima, definições didáticas das diferenças entre climatologia e meteorologia, o resgate do papel histórico das classificações, discussões sobre os modelos de classificação climática da terra e fenômenos climáticos como efeito estufa, desertificação, El Niño e La Niña, este livro é ideal para estudantes e profissionais de climatologia que desejam se aprofundar nos conceitos fundamentais desta área.

Sobre os autores:

Francisco de Assis Mendonça é mestre em Geografia Física, doutor em Clima e Planejamento Urbano. Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Paraná (UFPR), pesquisador 1B do CNPq, consultor da CAPES, FAPESP e FAPESC. É professor colaborador do mestrado em várias universidades do País. Atua nas áreas de climatologia, epistemologia da geografia, ambiente urbano e geografia da saúde.

Inês Moresco Danni-Oliveira é mestre e doutora em Geografia Física; ex-professora da UFPR. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Climatologia Geográfica, atuando principalmente em clima urbano, poluição do ar e saúde, acidentes climáticos, impactos socioambientais e variabilidade climática.

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