Recursos hídricos no séc. XXI: gestão para a sustentação da Vida

Novo livro dos professores Tundisi oferece soluções para a construção da gestão dos recursos hídricos voltada ao desenvolvimento sustentável e para uma nova ética no uso da água.

Edição revisada e ampliada da obra Água no séc. XX

Com o crescente problema de escassez e contaminação, a preocupação com o manejo sustentável da água ganha cada vez mais relevância em todo o mundo. Estimativas da ONU apontam que até o ano de 2025 o número de pessoas que vivem em países submetidos a grande pressão sobre os recursos hídricos passará dos cerca de 700 milhões atuais para mais de 3 bilhões. Fatores ambientais, econômicos, sociais e gerenciais contribuem para esta crise de abrangência mundial.

Como quebrar paradigmas, planejar e gerir os recursos hídricos? Como evitar a deterioração dos suprimentos de água?

Para os professores José Galizia Tundisi e Takako Matsumura-Tundisi, pesquisadores e autores de Recursos Hídricos no século XXI, é preciso descentralizar e integrar a gestão com o objetivo de dar consistência e apoio à gestão das bacias. Para eles, monitoramento permanente e participação popular são algumas das ferramentas para gestão dos recursos hídricos.

Em entrevista exclusiva ao Comunitexto, José Galizia Tundisi fala sobre suas ideias e sobre questões polêmicas, tais como a usina de Belo Monte e a transposição do Rio São Francisco.

Comunitexto: Hoje, qual a maior ameaça aos recursos hídricos?

José Galizia Tundisi: Existem várias ameaças aos recursos hídricos. Entre elas, as principais são: degradação de bacias hidrográficas; degradação da qualidade da água por vários fatores, como a falta de tratamento de esgotos; despejos industriais e metais tóxicos. Desmatamento é outra causa que afeta a quantidade e a qualidade da água.

Comunitexto: Quais são as novas oportunidades na gestão de recursos hídricos no Brasil?

J.T.: Gestão por sub-bacias, gestão de grandes bacias (São Francisco, Rio Grande, Rio Tietê), monitoramento e capacitação de gestores.

A falta de vegetação nas margens de rios e represas causa processo contínuo de perda de taludes, aumentando o assoreamento e resultando em perda de solo e da qualidade da água. Nesta foto, às margens da represa de Salto Grande (Uruguai/Argentina), vê-se nitidamente.

Comunitexto: Quais foram os avanços na legislação?

J.T.: Nos últimos anos, tivemos a adoção da gestão por bacia hidrográfica, os Planos Nacional e Estadual de Recursos Hídricos, a implementação da Agência Nacional das Águas e a implantação da portaria MS518 do Ministério da Saúde, que obriga a análises periódicas da qualidade das águas de abastecimento antes do tratamento.

Comunitexto: A Política Nacional para os Recursos Hídricos é avançada em relação a outros países?

J.T.: A Política Nacional de Recursos Hídricos e a legislação são bem avançadas e estão entre as melhores do mundo. O problema é a implantação, que é mais lenta do que necessária.

Comunitexto: Diante da polêmica com relação a Belo Monte, qual a sua opinião? O impacto ambiental terá proporções catastróficas ou os benefícios sociais serão maiores?

J.T.: O impacto de Belo Monte será minimizado pelas compensações, pelo saneamento da região, pelas oportunidades de emprego e pela oportunidade de gerar energia que será benéfica para o Brasil e para a região. Haverá benefícios sociais. O impacto da obra não será catastrófico de forma alguma e a gestão futura deve, sem dúvida, preservar estes impactos.

Comunitexto: E com relação à transposição do Rio São Francisco? Quais serão as consequências?

J.T.: A transposição do São Francisco poderá ser uma obra exemplar se houver: gestão das microbacias, tratamento dos esgotos dos municípios da área da transposição; revitalização do Rio São Francisco (da bacia) e capacitação de gestores e técnicos. Se estas medidas não forem tomadas durante a obra, o impacto e a transposição serão um desastre completo.

Transporte de material em suspensão na represa da UHE Carlos Botelho (Lobo-Broa), Estado de São Paulo

Comunitexto: Em carta publicada na revista Veja, o senhor diz que “Com matas ciliares e várzeas reduzidas, a agricultura terá pouca água, que é sua matéria-prima fundamental. Para que a regulamentação da lei seja efetiva e adequada é preciso que se utilize a informação científica existente no Brasil, que é de excelente nível”. O que o novo Código Florestal brasileiro (texto proposto por Aldo Rebelo, PCdoB-SP) pode significar para a gestão dos recursos hídricos no Brasil?

J.T.: O novo Código Florestal do Brasil, como está proposto, é uma ameaça aos recursos hídricos. Redução das matas ciliares e remoção das várzeas, como está proposto, reduzem a quantidade e qualidade da água, e aumentarão a escassez. A gestão de recursos hídricos será pontilhada de conflitos locais e regionais entre a demanda de água para a agricultura e o abastecimento. Deve-se discutir um novo Código Florestal utilizando-se as seguintes premissas: a proteção das várzeas, das matas ciliares e dos mosaicos de vegetação é fundamental para a manutenção do ciclo da água (quantidade) e da qualidade da água. O aumento da produção agrícola deve ser realizado às custas de uma maior eficiência de produção, e não às custas da redução de florestas e várzeas. A biodiversidade nos mosaicos de vegetação afetará o controle natural das pragas que afetam a agricultura.

Para saber mais sobre a gestão consciente da água, leia Recursos Hídricos no século XXI.

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