Túnel Base de São Gotardo: a obra do século

O túnel Base de São Gotardo é o túnel ferroviário localizado nos Alpes Suíços. Atravessar os Alpes por meio de rodovias exige uma longa e perigosa viagem por meio de estradas com intensos declives e curvas acentuadas, por isso, o objetivo desta grandiosa obra é interligar o norte e o sul da Europa.

O túnel faz ligação entre Zurique (Suíça) e Milão (Itália), e tem 57,1 quilômetros de extensão e 9,43 metros de diâmetro. Os trens de passageiro circulam a uma velocidade de 240 km/h em um tempo de aproximadamente duas horas e quarenta minutos, cerca de metade do tempo necessário atualmente.

A obra teve início em 1993 e concluída em 2016. O maciço de São Gotardo tem diversas peculiaridades que dificultaram a execução da obra, como grandes falhas geológicas, convergências com amplitudes muito altas e alternância de formações rochosas como granito, ardósia e gnaisse.

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Todas essas características levaram a imprevistos e a construção teve que passar por sucessivas mudanças de projeto. Se escavar um túnel normal já exige cuidados extremos, imagina fazer algo que passará por baixo de uma cadeia de montanhas. A pressão, os tipos diferentes de rochas e o comprimento do túnel de Gotthard fazem do seu projeto algo único e que precisa ser trabalhado de maneira diferenciada.

O processo de construção foi feito praticamente em conjunto com as escavações, nessa etapa observou-se o mesmo princípio usado por Mark Brunel na construção do túnel Tâmisa, onde uma pequena região era escavada e em seguida construía-se uma estrutura de sustentação.

Entretanto, no túnel de Gottard as paredes não são fortalecidas com tijolos, mas sim com “spray-creto”, um spray de concreto que endurece logo após sua aplicação, evitando desmoronamentos. Porém, somente o concreto não é suficiente, por isso são usados também arcos de aço. Esses arcos possuem juntas especiais que deslizam umas sobre as outras, dessa forma ao sofrerem a ação do peso da montanha eles não se deformam.

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Máquina Jumbo determina os locais exatos a serem explodidos

A escavação foi feita por meio de uma “máquina de escavar túneis”, chamada Herculia. A máquina é um avanço daquela utilizada na construção do túnel Mersey, porém com um desempenho consideravelmente maior. Herculia tem o tamanho de quase quatro campos de futebol e um cabeçote de quase 10 metros, tem a capacidade de romper 40 metros de rocha por dia.

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Herculia, máquina de escavar túneis

A interessante solução criada por Alfred Brandt durante a construção do Túnel do Simplon também é utilizada no túnel de Gotthard. Além do túnel principal foi construído simultaneamente um túnel secundário pelo qual entrará ar fresco, direcionado por meio de grandes ventiladores. Porém o grande comprimento do túnel de Gotthard criou um empecilho maior do que somente a ventilação, o calor.

A cadeia de montanhas acima aprisiona o calor e eleva a temperatura a até 45° C. Para resfriar o local foram instalados refrigeradores, mas o calor é tão intenso que as máquinas sofrem superaquecimento e para mantê-las em funcionamento é preciso que haja um sistema de resfriamento dos motores a base de água. A água circula por meio de canos instalados ao longo de todo o túnel. Metade da energia gasta na obra deve-se ao sistema de refrigeração.

Para evitar as falhas geológicas do maciço de Gotthard os engenheiros precisam cavar com precisão. Para auxiliar nessa tarefa é utilizado o sistema de direcionamento a laser, o mesmo do Eurotúnel.

Todas essas tecnologias foram fundamentais para possibilitar a criação do maior túnel do mundo. O novo túnel – já chamado de “Obra do Século” – criou uma rota subterrânea alternativa para a Europa. Trens de carga e passageiro farão a viagem em menos tempo, com mais segurança e conforto.

Esta matéria escrita por Natália Resende foi retirada do blog do PET Engenharia Civil – UFJF