Uso de mercúrio

Depois de quatro anos de negociação, 140 países fizeram o primeiro acordo global para banir o uso de mercúrio em garimpos e equipamentos de geração de energia, como pilhas e baterias, entre outros.

O evento, que terminou no dia 19 de janeiro, contou com a participação de representantes dos países que integram o conselho da ONU, e visava combater os problemas ambientais e de saúde provocados pelo uso de mercúrio, considerado um dos metais pesados mais tóxicos do mundo.

Foto: divulgação.

Apesar disso, a Convenção Minamata sobre Mercúrio, que recebeu esse nome em homenagem à cidade japonesa que teve parte da população envenenada na metade do século 20 por causa de descargas industriais de mercúrio, não estabeleceu metas definitivas para acabar com o uso da substância.

Pelo acordo, ficou definido que o uso de mercúrio na indústria será banido até 2020, mas instrumentos de medição, como termômetros, continuarão a utilizá-lo, já que os especialistas concluíram que não existem substitutos à altura. No garimpo, principal alvo da discussão, também não foi estabelecido um prazo para o fim do uso de mercúrio.

A aplicação de mercúrio com o intuito de facilitar a mineração joga na atmosfera e nos rios toneladas de mercúrio, que levarão décadas para serem absorvidas. Com isso, os peixes e plantas do entorno também são afetados, podendo contaminar pessoas e outros animais que dependem deles para a alimentação.

De acordo com o site da ONU, os governos de países emergentes alertaram que não havia como estabelecer um prazo para a eliminação do uso de mercúrio, argumentando que uma proibição forçada faria com que o comércio ilegal do produto explodisse.Também afirmaram que, se a taxa de emissão na atmosfera é alta atualmente, parte da responsabilidade é dos países ricos, que abusaram do produto em seus garimpos no século XIX.

Sem nenhuma definição por parte dos países em desenvolvimento, a ONU decidiu manter o projeto aberto a assinaturas até outubro deste ano, e novas negociações foram adiadas para 2014 ou 2015.

Fontes: Estadão e ONU


Os recentes debates sobre uso de mercúrio em garimpos impulsionaram a busca por métodos sustentáveis de mineração. Por isso, o Comunitexto preparou uma entrevista especial com nossos autores Arthur Pinto Chaves, livre-docente em tecnologia mineral e professor titular do Departamento de Engenharia de Minas e de Petróleo da Escola Politécnica da USP, e Rotênio Castelo Chaves Filho, engenheiro metalurgista pela PUC/RJ e gerente de projetos e de processos minero-metalúrgicos na Progen. Confira abaixo: 

Comunitexto: O Brasil está entre os 140 países que irão assinar um tratado para a redução do uso de mercúrio na mineração. Já ocorreram outras iniciativas nesse sentido?

Arthur Pinto Chaves: ocorreram diversas iniciativas no sentido de racionalizar o uso do mercúrio. Para entendê-las, preciso fazer uma digressão histórica. Ocorre que no fim do regime militar, a dívida externa era muito grande, bem como o desemprego. A maneira mais direta de obter divisas era por meio da estocagem de ouro. Instituiu-se, então, uma “indústria da garimpagem”: desempregados, desocupados e ambiciosos eram estimulados a abandonar as cidades e a se embrenhar no mato em busca do metal precioso. A Rede Globo, sempre subserviente ao governo, qualquer que seja ele, fazia propaganda escancarada da garimpagem e até mesmo colocava, nas novelas, personagens que abandonavam a família para ir para o mato e que voltavam ricos. Houve, portanto, uma migração desenfreada para os garimpos. Estima-se que, no auge, 800.000 garimpeiros estavam em atividade. Ora, trata-se de gente gananciosa, em busca de enriquecimento fácil. Não sabiam trabalhar o minério. As perdas de ouro foram enormes, e buscava-se facilitar o trabalho, que é onde entra o mercúrio: ele é pesado (densidade de 13,6) e dissolve o ouro, formando o amálgama. Colocando-se mercúrio no fundo da bateia, qualquer partícula de ouro que passasse por lá era aprisionada, facilitando muito o trabalho de bateamento.

Para recuperar o mercúrio desse amálgama, a técnica correta é espremer o amálgama numa flanela para retirar o excesso de mercúrio e depois destilar o amálgama retido no pano. O garimpeiro, burro e apressado, não faz isso. Ele queima o amálgama num maçarico: o mercúrio vaporiza-se, é respirado por ele, o vapor se deposita nas plantas de sua horta, nos frutos das árvores próximas, sobre o capim que o gado ou o peixe do rio vai comer. Aí o mercúrio é metilado pelas plantas e ocorre o desastre ambiental.

As primeiras iniciativas foram tomadas pelo Cetem (Centro de Tecnologia Mineral), no Rio de Janeiro, RJ. O diretor era o dr. Roberto Villas Bôas. Eles desenvolveram técnicas e equipamento barato para o uso correto do mercúrio e visitaram os garimpos tentando educar os garimpeiros, mas com muito pouco resultado. O prof. Marcello Veiga, da Universidade de British Columbia, no Canadá, desenvolveu para a Unido um programa semelhante em toda a América do Sul. Teve resultados no Equador e no Peru, mas poucos no Brasil.

Rotênio Castelo Chaves Filho: A bem da verdade, há várias décadas estão em discussão restrições ao uso de mercúrio de uma forma geral, particularmente na mineração de ouro, mas somente agora, e em escala mundial, estamos próximos da assinatura de um acordo sobre esse tema.

CT: O uso de mercúrio na mineração é necessário? Existe alguma forma de fazer uso seguro dessas substâncias?

APC: O uso do mercúrio é necessário e conveniente, pois se trata de uma técnica barata e, por isso, econômica. O uso seguro desse metal é por meio da destilação do amálgama (que não se restringe ao ouro, e pode ser de cobre, prata e outros metais).

RCCF: A amalgamação é um dos métodos de recuperação do ouro contido nos concentrados, mas não é o único. O ouro pode ser extraído, por exemplo, por lixiviação cianídrica. Destacamos que o mercúrio pode ser utilizado de forma segura, para os operadores e para o meio ambiente, com a utilização de equipamentos adequados, como moinhos de amalgamação e retortas para vaporização e recuperação completa do mercúrio. O problema mundial na utilização do mercúrio na mineração de ouro é que sua aplicação pelos mineradores informais (garimpeiros) é geralmente feita sem nenhuma técnica ambientalmente segura. Isso acarreta perdas para o meio ambiente, riscos de ele se integrar à cadeia alimentar e mesmo de se incorporar imediatamente ao ser humano através da respiração dos vapores durante a “queima” do amálgama. Em outras palavras, o mercúrio pode ser utilizado em mineração desde que seja de forma segura, o que infelizmente não ocorre na grande maioria dos casos.

CT: Existem outras técnicas que permitem separar os minerais dos resíduos, como a separação densitária. Quais as diferenças entre elas?

APC: Existem sim. A diferença em relação às outras técnicas é que o mercúrio facilita o trabalho. Além do bateamento manual, industrialmente os minérios são processados em jigues, espirais concentradoras, mesas vibratórias, equipamentos centrífugos e por flotação. A cianetação é um processo hidrometalúrgico muito eficiente e usado.

RCCF: Todos os métodos de concentração gravimétrica ou densitária produzem concentrados de ouro, uma mistura do metal com outros minerais de ganga (rejeitos). Assim, sempre será necessário aplicar um processo final para a apuração do ouro, e que pode ser a lixiviação cianídrica já citada.

CT: O processo de separação densitária pode ocasionar algum problema ambiental se não for feito corretamente? Caso sim, quais cuidados devem ser tomados para evitar esse problema?

APC: O único problema com os processos de separação densitária é o elevado consumo de água. Isso faz com que os concentrados e rejeitos tenham que ser desaguados e, geralmente, a disposição dos rejeitos é feita em barragens de rejeito, que costumam ser ambientalmente impactantes. O cuidado é o mesmo de sempre: ter uma engenharia correta. A boa engenharia tem soluções técnicas e econômicas para todos os problemas que aparecem. Se não tiver, é porque se trata de um projeto inviável.

RCCF: A separação densitária não produz “lodo”, mas sim rejeitos contendo os minerais de ganga que compõem o minério original. Métodos densitários não alteram a mineralogia dos minerais contidos, porque são métodos essencialmente físicos, que não envolvem nenhuma reação química. Como o teor de ouro no minério é muito baixo, a massa de minerais rejeitados no beneficiamento do minério é muito grande e, assim, sua disposição é um problema, porque exige grandes espaços de contenção na forma de bacias de rejeitos e responsabilidade total no projeto dos diques de contenção. Mas, reitero, os problemas são de ordem física – os grandes espaços que as bacias de rejeitos exigem e os riscos inerentes ao processo construtivo e à manutenção permanente das barragens.  Entretanto, convém destacar que técnicas mais atualizadas para disposição dos rejeitos, utilizando-se métodos modernos para a separação sólido-liquido, tendem a minimizar ou mesmo eliminar a necessidade de bacias de rejeitos no formato convencional.

CT: Em quais circunstâncias cada processo pode ser aplicado? 

APC: O ouro é muito pesado (densidade de 19,3), portanto é muito fácil separá-lo dos outros minerais, mesmo em granulometrias muito finas. Para elas, foram desenvolvidos equipamentos centrífugos que estendem a faixa de aplicação dos métodos até tamanhos impossíveis de serem processados por outros métodos.

RCCF: A cianetação também envolve riscos, mas eles são perfeitamente minimizados pela boa técnica de engenharia, que precisa ser aplicada sempre. A amalgamação também poderia ser aplicada na apuração final do ouro se boas técnicas fossem empregadas em todos os casos, mas como ela é de fácil execução mesmo manualmente, é utilizada, no mais das vezes, sem nenhuma tecnologia ambientalmente sustentável, chegamos ao ponto de o mercúrio estar em vias de ser banido mundialmente da mineração de ouro, exceto nos garimpos devido à oposição dos países emergentes. Aplicando-se tecnologias ambientalmente corretas para os dois processos (cianetação e amalgamação), ambos são utilizáveis, exceto, no que diz respeito à cianetação para os minérios ou concentrados de ouro que contenham substâncias cianicidas que aumentam o consumo do cianeto, elevando  conseqüentemente os custos operacionais ao ponto de tornar o processo pouco atrativo economicamente. Temos, ainda, dois aspectos a destacar: a cianetação é mais eficiente na recuperação do ouro, enquanto os custos operacionais com a amalgamação são mais baixos. No ponto em que a contaminação ambiental com mercúrio chegou, devido principalmente à falta de conhecimento e mesmo à irresponsabilidade dos mineradores informais (garimpeiros), chega a ser insustentável diante da opinião pública o ato de defender a utilização do mercúrio na mineração do ouro, mesmo que utilizando técnicas seguras.

CT: Qual o melhor modo de substituir uma técnica por outra?

APC: A escolha do método de beneficiamento depende de vários fatores independentes: tamanho das partículas de ouro e dos outros minerais presentes nos minérios; se o ouro está livre ou associado a outros minerais (sulfetos, por exemplo); presença de cianicidas; presença de lamas etc.

RCCF: Além das eventuais restrições legais ao uso do mercúrio, a utilização de um método ou outro depende: (a) das características do minério (presença ou não de cianicidas, e grau de liberação do ouro, por exemplo); (b) da escala de produção; (c) do estudo de viabilidade econômica do projeto. O custo de capital (investimento) mais elevado deverá corresponder às instalações com cianetação forçada, em tanques com agitadores.

Tudo a ver:

Gostou da matéria? A obra Teoria e Prática do Tratamento de Minérios – Volume 6, escrita por Arthur Pinto Chaves, livre-docente em tecnologia mineral e professor titular do Departamento de Engenharia de Minas e de Petróleo da Escola Politécnica da USP, e Rotênio Castelo Chaves Filho, engenheiro metalurgista pela PUC/RJ e gerente de projetos e de processos minerometalúrgicos na Progen. O livro tem uma abordagem prática e didática sobre os principais conceitos envolvidos na separação densitária, que tem menor impacto ambiental e custos atraentes por tonelada processada. Ilustrações e exercícios resolvidos fazem da publicação uma leitura essencial para acadêmicos e profissionais da área de mineração e metalurgia. Lançamento previsto: meados de fevereiro de 2013.

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